9 de set de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE O NARCISISMO - PARTE XI: HOOVERING


Narcisistas são, acima e antes de qualquer coisa obsessivamente controladores.

Como são incapazes de se relacionar com os outros com honestidade e sinceridade, muito de sua energia mental é dispendida divisando esquemas para evitar que suas más ações venham ao conhecimento dos alvos atuais, e a única maneira de garantir que isso não aconteça é monitorando e, preferencialmente, controlando não só as ações mas a própria imagem das pessoas de quem abusou no passado ao mesmo tempo que cuidam de minar a credibilidade de qualquer um que represente uma ameaça à falsa personalidade que desfilam pelo mundo.

600 anos antes de Cristo, lá na China Lao Tsé já ensinava: mantenha seus amigos sempre perto e os inimigos mais perto ainda. Ninguém aplica tanto e tão bem esse ensinamento como o narcisista, simplesmente porque para ele todos são seus inimigos - e eles não deixam de estar certos, porque a confiança é a base de tudo para um ser humano e costumamos reagir (às vezes violentamente) ao menor indício de estarmos sendo traídos ou abusados em nossa confiança; e como narcisistas sobrevivem de se aproveitar da confiança alheia, seguem pela vida a fora sendo rechaçados, escorraçados, insultados e por aí a fora.

Quanto maior o tempo e grau de intimidade de uma relação, maior o investimento de confiança que fazemos nela. E poucas coisas são mais enfurecedoras do que descobrir que aquela pessoa em quem você investiu tanta confiança era uma farsa. Muita gente perde a cabeça e é capaz de reagir com extrema violência nessas circunstâncias, partindo para a agressão e a vingança, e o hoovering (que e inglês significa "pairar) é o escudo que o narcisista usa para se proteger dessa possibilidade.

A expressão foi cunhada por psicólogos para descrever o assédio praticado pelos narcisistas após a exposição (com familiares, amigos, colegas e ex-parceiros afetivos) para "fazer as pazes" e assim "voltar" a "fazer parte" das suas vidas. O hoovering serve primeiramente para tentar induzir a pessoa a duvidar das próprias percepções. Algo tipo: veja, sou eu que estou aqui... Eu, aquela pessoa boa e maravilhosa que sempre esteve ao seu lado... Aquele outro que lhe traiu, que insultou e falou coisas terríveis não era eu... Você entendeu mal... Você é que não viu... É que suas acusações causaram um sofrimento tão terrível para mim... Mas era tudo da boca para fora... e por aí a fora...

Nesse estágio, o narcisista se esforça para demonstrar suas "boas qualidades" resgatando a falsa personalidade que apresentou anteriormente ao descarte - e não se iluda: o descarte não tem volta.

Esse reaparecimento pode acontecer dias, semanas, meses ou mesmo anos depois do descarte; o fator determinante é a necessidade do narcisista - nunca, jamais a sua. Não é "saudade", não é que ele tenha "mudado" e muito menos "reconhecido seus erros" e decidido "recomeçar" - pelo menos não no sentido que entendemos: tudo que ele quer recomeçar é a dinâmica de sugar até a medula da sua vítima garantindo livre e repetido acesso a alguma vantagem afetiva, financeira, profissional, material, etc...

Além disso, a proximidade permite ao narcisista antecipar os movimentos e reações do alvo ao mesmo tempo que reinsere na vida dele todo o caos de que sempre se faz acompanhar, juntamente com a entouraje de flying monkeys, que serve o duplo propósito de aplaudir seus movimentos e divertir-se às custas da vítima.

Portanto, quando o narcisista reaparecer à sua porta mesmo depois de anos todo arrependido e fazendo juras de amor, não acredite: ele não só não está absolutamente arrependido como o vê como um inimigo e seu único propósito é ensinar uma lição da forma mais cruel e vexatória possível e ele cuidará que todos os olhares estejam em você - particularmente os olhares daqueles que lhe forem mais íntimos e caros - quando o expuser como uma pessoa vil, falsa e desprezível ao mesmo tempo que cuida de dissipar seus recursos materiais, destruir sua carreira, sua auto-estima, ou mesmo sua vontade ou razão de viver.

Sim, eles são doentes a esse ponto e se aproveitam da dificuldade que temos em admitir quando erramos em avaliar o caráter de outro ser humano. É que aceitar essa possibilidade implica admitir que podemos nos enganar radical e estruturalmente ao estimar os outros, e esse pensamento nos leva a duvidar da nossa própria capacidade de ser e estar em sociedade, pois se a base de tudo é a confiança e não sabemos distinguir uma pessoa confiável de uma não confiável, o que isso diz de nós? Que não temos capacidade de construir um nicho seguro para nós mesmos: e isso é desastroso! Essa constatação é terrivelmente perturbadora e se não tomarmos cuidado, se não pararmos para revisar nossos critérios e, principalmente, observarmos como o tempo todo a nossa intuição esteve tentando avisar sobre aquela pessoa e, principalmente, as razões pelas quais decidimos ignorar esses avisos; arriscamos cair num ciclo vicioso de culpa, depressão e desconfiança.

Mas o foco deve ser a lição. E a lição é: ouvir a nossa intuição. E na hora, no instante que ela está soando o alarme. É nela e em nada nem ninguém mais que devemos sempre depositar nossa maior confiança. E intuição não tem nada de abstrato ou esotérico, mas sim uma função mais elevada e altamente especializada dos nossos sentidos para detectar predadores entre os seres humanos, porque precisamos dos outros (e e eles de nós) para sobreviver: que razão tem um ser humano para correr no socorro de outro senão a confiança de que na eventualidade de estar ele numa situação de perigo outro ser humano faça o mesmo. Sem confiarmos uns nos outros, não teríamos sequer chegado às cavernas, não teríamos sequer chegado a formar tribos.

O aspecto mais insidioso, mais cruel do hoovering é que ele costuma acontecer quando todas essas dúvidas nos consumem, e nem é tanto porque o narcisista tenha o superpoder de detectar esse momento, mas porque o sofrimento é tão insuportável, que muitas vítimas acabam permitindo que ele retorne às suas vidas na (vã) esperança que isso vá desfazer o mal-entendido, matar o dragão da dúvida e restaurar a "normalidade" sem que elas precisem fazer uma séria e profunda reavaliação pessoal. Só que, como bem sabemos (ou deveríamos já ter aprendido) esse dragão é o próprio narcisista, e essa volta triunfal (para o narcisista) é para arrastá-las ainda mais fundo no inferno.

Não tenha um pingo, uma sombra de dúvida sobre isso, porque para o narcisista, você não passa de um fantoche que tem a obrigação de adorá-lo e satisfazer todas as suas vontades mesmo que isso implique a morte em vida para você - ele é indiferente, porque do ponto de vista do narcisista, você não existe, nunca existiu e jamais virá a existir como um indivíduo. Para o narcisista você não tem vontade, desejos ou anseios próprios: é só (mais) um casaco que ele tira do armário quando precisa, usa como e quando quer, então guarda de volta para quando precisar.

Se não puder controlá-lo diretamente, o narcisista procurará infiltrar um "espião" no seu círculo e não terá o menor problema em criar um perfil falso para segui-lo nas redes sociais. Então, não hesite em romper com toda e qualquer pessoa que suspeite estar mais próxima a ele do que a você e desconfie de qualquer pessoa amiga dele que pareça interessada em você de uma hora para a outra. Narcisistas são manipuladores e todo o manipulador triangula, ou seja, insere terceiros nas relações sejam amorosas, familiares ou de amizade. Sabe aquele amigo que anda, vira e mexe acaba comentando algo ruim sobre outra pessoa? Ele é um manipulador. O que ele na verdade está tentando dizer é "veja como eu sou melhor do que fulano ou beltrano por causa disso, disso e daquilo". Simples assim. Gente séria e honesta não precisa rebaixar ninguém para se sentir superior. De mais a mais, quem garante que essa pessoa mais adiante irá falar mal de você?

Enfim... se não tiver acesso direto à sua vida, o narcisista buscará alguém que faça o serviço para ele. Eles geralmente conseguem isso se aproximando dessa pessoa e fingindo estar muito preocupado com você: "oh, estou tão preocupado com o fulano! Ele não atende o telefone, não responde meus e-mails... tenho medo que esteja muito deprimido e acaba fazendo alguma bobagem"... ou qualquer coisa do gênero. Você entende o quadro, afinal, quantas vezes isso já não aconteceu com a gente, não é? A preocupação com uma pessoa que se afasta é uma reação absolutamente natural de quem de fato se importa com ela e manipuladores se aproveitam disso não só para extrair as informações que buscam como para contar uns pontos extras com a gente, porque ao ouvir coisas assim, tendemos a pensar "oh, veja como ele é bonzinho: está tão preocupado...!" E aí, para parecer igualmente boazinha e preocupada, a pessoa corre para o telefone para saber como está o tal fulano, então volta correndo para contar, porque assim, além de parecer boazinha e preocupada ela parece importante também. Isso em si não tem nada de errado: primatas se relacionam na base do toma-lá dá cá, só que ao invés de trocarmos bananas, trocamos favores e pessoas manipuladoras desenvolveram a habilidade de sair sempre lucrando nessas trocas, entende? A diferença entre o manipulador e o narcisista é que o manipulador não quer lhe destruir no processo, apenas levar alguma vantagem e está bem consciente que existe um limite, uma hora de parar e dar algo em troca e o narcisista pode até saber disso, mas como se julga acima desse limite.

E já que estou tocando neste assunto, fica uma dica que vai lhe poupar muita dor de cabeça: desenvolva o sadio hábito de primeiro se peguntar porquê essa pessoa que era tão íntima da outra não se dá ela própria o trabalho de falar com o tal fulano, já que está tão preocupada. E depois disso, entenda que o que quer que tenha acontecido entre elas não é problema seu: é delas. E então, desvencilhe-se da incumbência que essa pessoa está tentando lançar sobre você dizendo algo como: "oh, veja só, que pena! Já que está tão preocupado, você bem que podia procurá-la, não é?". E fim. Ponto final. Resista ao impulso de aumentar seu escore junto a manipuladores, porque é justamente desse ladinho bem primitivo da natureza humana que eles se aproveitam mais.

"Espiões" ou perfis falsos servem para o narcisista monitorar os seus passos e manter-se informado do seu estado emocional. Nunca esqueça que o narcisista o estudou muito bem e o conhece talvez melhor do que você mesmo, e ele sempre vai usar esse conhecimento contra você para determinar o melhor momento de reaparecer como o herói, e se você vacilar, ele (ou ela) vai entrar novamente em sua vida para mais uma sessão de abusos, porque ao mesmo tempo que acaricia as feridas do seu ego com pretextos e promessas falsas, mas esse mar de rosas terá uma duração ainda mais curta do que o love bombing inicial, porque - e nunca é demais enfatizar - o narcisista jamais volta para "reatar" qualquer vínculo que tenha tido com você: ele volta para se vingar, para extrair até a última gota dos seus recursos materiais e emocionais, enlameá-lo com toda a sorte de situações vexatórias, calúnias e difamações e finalmente expô-lo sujo e humilhado perante a maior plateia que puder reunir. Este é o objetivo final do narcisista ao se relacionar com qualquer pessoa, porque por alguma distorção profunda na personalidade, o único prazer que o narcisista consegue sentir nesta vida é esse momento de triunfo sobre outro ser humano e ele vem na proporção da humilhação a que  submete o outro.

Se você não tiver trancado bem as portas e janelas da sua vida, no instante que perceber algum movimento em sua vida, o narcisista cuidará de reaparecer. Por isso é que depois do rompimento, o afastamento físico e bloqueio total de qualquer forma ou possibilidade de acesso à sua vida íntima é fundamental.

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