14 de abr de 2017

GENTE INGRATA


O ingrato entra na vida da gente se fazendo de grande coisa, com o nariz empinado e logo começa a revirar tudo, apontar defeitos e criticar e mostrar tudo o que falta, tudo que é pouco ou precário, onde, como e porquê precisamos "melhorar".

A essa altura, era pra gente dizer: "espera aí: isso aí que você está pisoteando é a minha vida, minhas conquistas, minha família, o meu mundo. Mas a gente não diz, porque há um fundo de verdade nos defeitos que o insatisfeito apontou, afinal, a gente sempre poderia ser e estar melhor, a vida sempre pode melhorar, né?

Então a gente dá um suspiro, arregaça as mangas, pega o balde, o rodo, o espanador e começa a faxina sem se perguntar o que o insatisfeito pretende para si com aquilo tudo. E é aí que cometemos o primeiro erro, porque imaginamos que, como nós, o ingrato queira o melhor para as pessoas de quem gosta sem que isso necessariamente represente algum benefício para si mesmos. Só que isso não é verdade, porque o ingrato não quer o que é melhor para nós: ele quer o que julga melhor para si mesmo. Ele quer que mudemos as nossas vidas e até quem somos, como nos vestimos e nos comportamos para provermos o que ele precisa para se sentir bem consigo mesmo, sem precisar um esforço significativo de crescimento e/ou adaptação para compartilhar a vida com a gente.

E mais: via de regra, o ingrato dá o seu palpite esperando que o cumpramos como soldados mostrando-se decepcionado e criticando se não seguimos ao pé da letra suas instruções. E sempre tem uma desculpa esfarrapada para nos deixar trabalhando sozinhos. Ainda assim, enquanto fazemos todo o trabalho pesado, o ingrato se põe no papel de supervisor, dando palpites e criticando os mínimos detalhes das nossas ações: nada é bom o suficiente, e ele com certeza teria feito melhor - só que não faz. E se fizer uma coisinha que seja, como levar o lixo para a rua, o fará de má vontade ou fará parecer um grande gesto ou sacrifício.

A conta nunca fecha quando lidamos com ingratos: a gente dá 100, eles devolvem cinco e agem como tivéssemos ficado devendo mais 50. Porque todo o ingrato é, acima de tudo, um egoísta incapaz de reconhecer os esforços que os outros fazem para satisfazer seus caprichos que parecem nunca acabar.

Gente que se empenha, se questiona e quer avançar na vida é presa fácil dos ingratos porque a inclinação que temos para melhorar e crescer decorre de nossa própria insatisfação. Mas insatisfação e ingratidão são duas coisas bem diferentes. Porque a insatisfação nos motiva a crescer e avançar na vida, e é por isso nem boa nem ruim. É a ingratidão cega as pessoas para a apreciação do quanto avançaram e cresceram, o que acaba resultando em mais insatisfação.

Eu posso concordar com o ingrato que o sofá da sala está velho e já poderia ter sido substituído há um bom tempo, por exemplo, mas eu trabalhei por aquele sofá, eu pensei muito tempo antes decidir por aquele modelo específico, pesquisei preços, elaborei dezenas de cenários alternativos para a sala com decorações e sofás diferentes até me decidir por aquele sofá que hoje está ali, meio desgastado e desbotado. Eu sei o tempo, a energia e o dinheiro que precisarei despender para trocar de sofá. Além disso, eu lembro muito bem como foi o dia que aquele sofá chegou e como me senti recompensada ao me atirar nele pela primeira vez. Esse sofá que o ingrato tanto critica tem um significado para mim, que vai muito além da forma, do estilo, do status ou valor de mercado: ele é uma recompensa que me dei pelo tempo de vida de que abri mão trabalhando para outras pessoas quando poderia estar me divertindo ou perseguindo meus objetivos artísticos ou pessoais.

Quando faz pouco do meu sofá, o ingrato está fazendo pouco disso tudo também. Ele está fazendo pouco das minhas conquistas pessoais, dos meus sentimentos e da minha capacidade de julgar e decidir o que é melhor para mim e de apreciar o ponto onde me encontro no aqui e agora, independente de onde pretendo chegar mais adiante.

Para ele não existem esses checkpoints na vida: se o objetivo do ingrato é uma cobertura no Leblon com vista para o mar, nada que não seja isso é capaz de satisfazê-lo. E quer saber uma coisa? Nem a cobertura no Leblon com vista para o mar irá satisfazê-lo, pois se chegar a conquistá-la, vai achar algum defeito na planta, nas janelas, no condomínio, na vizinhança... qualquer coisa para seguir sendo um ingrato e culpando a vida e os outros pela pouca sorte que tem.

Quando a gente diz "estou feliz onde estou", o ingrato logo nos rotula de "acomodados", imaginando que não temos intenção de seguir avançando e crescendo pela vida, que estamos estagnados, mortos e vazios. O aqui e agora para o ingrato é só a frustração de constatar o quão longe ele está de onde pretende chegar, e a menor diferença entre o aqui e agora e o que ele tinha imaginado vir a ser é vista como um retumbante fracasso.

Conviver com uma pessoa ingrata é sujeitar-se ao veneno constante das críticas e reclamações que primeiro nos arranca o prazer de apreciar onde estamos e tudo por que passamos para chegar até aqui, para aos poucos aniquilar a motivação para seguir em frente, pois se tudo porque passamos não vale nada, para que prosseguir? Para juntar mais nadas que não vão valer nada logo adiante também?

Essa gente negativa também vai minando nossa auto-estima porque é absolutamente incapaz da menor apreciação sincera por nossos esforços, criticando e apontando falhas em todas as iniciativas que tomamos como indivíduos autônomos e não se mostrando satisfeitas nem quando seguimos ao pé da letra as suas ordens e instruções. Se economizamos meses a fio para dar de presente algo que sabemos que o ingrato deseja, ele pode fingir surpresa ao abrir o presente, mas logo logo vai dar um jeito de demonstrar que não era bem aquilo que ele queria e/ou inventar algum motivo para não usufruir.

A convivência com uma pessoa ingrata também nos ensina a nunca esperar um agrado, um incentivo, um elogio que não venha acompanhado de uma crítica para nos magoar e baixar a auto-estima. O ingrato parece sentir prazer em escolher a torta mais engordante para o seu aniversário, cantar parabéns e lembrar sobre seus quilinhos a mais bem en passant, como quem não quer dizer nada.

Sim, como você bem deve ter deduzido a essas alturas, pessoas ingratas são muito invejosas e lá no fundo, guardam um rancor tremendo da nossa capacidade de sentir alegria pelo simples fato de existirmos, de parar para apreciar as flores no caminho entre uma e outra meta em nossas vidas, de não julgar o que recebemos pelo status ou valor aos olhos dos outros, mas pelo significado que tem em nossas vidas. Ao ingrato é impensável alegrar-se pelo par de meias recebido da tia no Natal, porque para ele tudo o que conta é o par de meias em si, não o gesto, a lembrança, o carinho e o trabalho que a tia teve ao sair de casa enfrentando sozinha as ruas e lojas lotadas. A dimensão do outro, sua existência, sentimentos, anseios e temores não existe para o ingrato: tudo que existe é a sua vontade, sempre insatisfeita. Você pode carregar o mundo nas costas pela pessoa ingrata, e ela ainda vai reclamar que é pouco ou nada daquilo que ela esperava, queria ou precisava.

E sabe o que mais? Cedo ou tarde, o ingrato vai apunhalar você pelas costas: a questão não é se, mas quando. E vai fazê-lo sem dó nem piedade, e ainda por cima culpá-lo e fazer pouco do seu sofrimento. Porque é assim que gente ingrata faz, é assim que gente ingrata é.

Aí eu pergunto: vale a pena?

Ninguém no mundo merece que você abra mão de quem é, de onde veio e para onde quer ir, e tenha certeza: pessoas gratas à vida jamais em hipótese alguma cobrarão isso de você.

Pessoas ingratas não valem o tempo que perdemos ouvindo as suas queixas, e muito menos que façamos o menor esforço para agradá-las. A gente pode ajudar, mas ao menor sinal de ingratidão, se afaste e deixe que a pessoa se vire com seus problemas. Se não fizer isso, você vai acabar dedicando mais tempo para resolver os problemas dela do que os seus. E sabe o que o ingrato vai estar fazendo enquanto isso? Arranjando mais problemas para você resolver. Entenda: é uma teia, e se você se deixar prender a coisa fica muito, mas muito complicada. Por isso é que eu digo: ao menor sinal de ingratidão, recue. Recolha as mãos e deixe a pessoa se virar sozinha. Isso não é maldade, é pedagogia.

E nem perca tempo tentando dar o troco depois de ter sofrido alguma ingratidão. Deseje Luz e deixe que se vá. A vida sempre retorna o que a gente dá e tem seu próprio jeito de lidar com gente ingrata, tirando cada vez mais. Isso se chama carma e é tão certo como o sol que nasce a cada dia. E tampouco fique parado na beira da estrada esperando para ver o carma se abater sobre a vida da pessoa ingrata. Vou contar um segredo: o que o carma gosta mesmo é de esperar até que a gente deixe para trás a história toda para então acontecer.

Porque o carma do ingrato não tem nada a ver com a gente. O carma em si tem muito menos a ver com as coisas que nos acontecem do que com a maneira como reagimos quando as coisas acontecem, sejam "boas" ou "ruins" - coloco entre aspas, porque esses julgamentos são relativos: muitas coisas que julgamos "ruins" acabam sendo boas mais adiante, e vice-versa.

O carma da pessoa ingrata é não saber reconhecer quando coisas boas acontecem, e seguir reclamando, futricando e querendo mais. E isso acaba não só tirando as coisas "boas" mas criando coisas "ruins", e aí a pessoa ingrata age impensadamente criando ela própria uma reação em cadeia de coisas "ruins" e se não se corrigir pelo caminho, acaba se dando muito mal na vida.

Mas o mais importante aqui é o seu carma, e ele vai ser determinado pela maneira como você reagir quando sofrer uma ingratidão. É preciso entender antes de mais nada que a ingratidão em si não foi o seu carma: ela é e sempre será o carma que o ingrato criou para si mesmo pelas próprias palavras e ações. Para você, a ingratidão é um teste como que num intervalo entre um carma e outro, e cabe a você e mais ninguém decidir se vai usar esse intervalo para criar um carma bom ou ruim: no caso específico você vai ter que escolher entre crescer e aprender a impor limites aos outros criando um carma "bom", ou criar um carma "ruim" abandonando o próprio caminho de crescimento para se vingar do ingrato. E vai colher futuramente as consequências dessa decisão. Simples assim.

Meu conselho é e sempre será buscar o carma bom e aprender a lição. Aquele sofá velho e desbotado vale muito mais do que a pessoa ingrata que o criticou, porque não foi ganho de mão beijada: você foi lá, batalhou, suou e conquistou aquele sofá e não existe motivo no mundo para se desfazer dele até que você mesmo decida que ele já deu o que tinha que dar. E o presente que deu, os esforços que dispendeu, as mudanças que fez em si e o tempo de vida que dispendeu por um ingrato não foram desperdiçados: você sai da situação mais maduro, mai fortalecido e determinado a valorizar e agradecer ainda mais à vida por tudo que é sólido e verdadeiro ao seu redor. Porque a pessoa ingrata pode ter trazido muitas coisas, mas roubou a verdade de quem você é, do quanto vale como ser humano e do quanto pode acrescentar ao mundo pelo próprio esforço e criatividade.

Gente ingrata também é muito anti-ecológica, se você quer saber. E se a gente entra na jogada deles acaba morrendo por dentro e virando outro consumidor ingrato, voraz e satisfeito que quando morrer ao invés de lembranças vai deixar um monte de quinquilharias, carnês e prestações para os outros pagarem.

Será que isso é viver?

Não é. E tenho certeza que como eu, você é e pode muito mais por si e pelos outros nesta vida, e como eu, tem muito a agradecer, mesmo e talvez até por causa de tantas ingratidões que sofreu.