22 de mar de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE O NARCISISMO - PARTE X: STONE WALL


Stone wall (muro de pedra) é uma estratégia de sobrevivência que visa oportunizar às vítimas de abuso o tempo e o espaço pessoal necessários para recuperar-se de situações emocionalmente extenuantes e reassumir o controle sobre a própria existência. E isso só se consegue afastando completamente o abusador do seu dia-a-dia, obstruindo qualquer possível via de acesso físico e virtual.

Parece drástico, mas é absolutamente necessário, particularmente quando se trata de narcisistas, porque eles não só não têm o menor respeito ou consideração pelos limites dos outros, como não assumem responsabilidade por absolutamente nada, sentindo-se mais do que à vontade para entrar e sair da sua vida conforme lhes for conveniente - isso se chama hoovering (pairar).

Em média, são necessários 7 rompimentos para que a vítima de um narcisista finalmente consiga encerrar de vez a relação. O problema é que a cada reconciliação, a "lua de mel" fica mais curta e o abuso mais pervasivo e violento. Isso acontece porque na cabeça do abusador, o seu perdão tem o efeito de um convite para abusar mais. Além disso, a cada vez que você tenta romper a relação, ele se sente humilhado pelo que quer que tenha se obrigado a fazer manter a relação, acumulando rancores e arquitetando vinganças com crescente crueldade. Não é a primeira nem será a última vez que ele passa por isso, então ao primeiro limite que você impuser na relação, ele já colocará seu plano B em ação. Não tenha ilusões: enquanto você ainda comemora o encontro da sua "alma gêmea" ele já está prospectando um parceiro-reserva para qualquer contingência.

A coisa mais importante para ser entendida nesta vida é que você não tem o poder de mudar ninguém além de si mesmo. Ao contrário do que ensinam as novelas, filmes e romances, o amor não é uma força mágica com poderes de transformar a fera numa pessoa normal. Isso se chama vontade e tem que partir da própria pessoa: ela é que precisa fazer todo o esforço e tomar por si só a iniciativa de buscar ajuda profissional e empenhar-se de corpo e alma na própria mudança.

Essa mudança de paradigma é importantíssima, particularmente para as mulheres brasileiras que seguem sendo emocionalmente educadas como se o abuso, os ciúmes, a gritaria, as atitudes extremas e violentas e a manipulação fossem "provas de amor". Assim como boas notícias não vendem jornal, amores saudáveis não dão bons romances, porque seus enredos carecem do tempero que prende o leitor. Mais do que modelos a serem buscados, os relacionamentos descritos nessas obras de ficção devem servir como exemplos dos sintomas de relacionamentos ruins e seus finais felizes vistos muito mais como uma vírgula do que pontos finais, porque encerram o ciclo daquele romance encaminhando para o próximo num crescendo que se não for interrompido a tempo, culminará num thriller de terror.

O amor não "perde a cabeça", não grita, não humilha, não machuca e jamais, em hipótese alguma, agride fisicamente. Amor é, acima de tudo, respeito. Mais do que qualquer outra coisa, o respeito é essencial a todos os relacionamentos. Sem respeito, não há apreciação, sinceridade, confiança e companheirismo, que são as bases necessárias a um relacionamento sólido e gratificante.

A falta de respeito é sim mais do que motivo para acabar com qualquer relacionamento. Ninguém quer, precisa e muito menos merece ser obrigado a conviver com alguém que não o respeita. Se por questões práticas o afastamento total não é viável no momento, o conselho é buscar o quanto antes a ajuda psicológica (acredite-me: você vai precisar de terapia para entender e superar em si as deficiências que o tornam vulnerável a esse tipo de pessoa) e com a ajuda dele, praticar o grey rock que descrevi na Parte IX desta série, enquanto se prepara e reúne as forças emocionais necessárias para botar em prática o próximo passo que é o stone wall.

Na prática, o stone wall é a absoluta erradicação da presença dessa pessoa da sua vida, erguendo uma barreira que a impeça de sequer contactá-lo por vias indiretas. Tendo estabelecido que seu parceiro, amigo, colega, vizinho ou familiar é um narcisista, com a ajuda do terapeuta você vai cuidar de se fortalecer emocionalmente para criar novas circunstâncias de vida e lidar com as consequências de eliminar essa pessoa da sua vida. Sim, isso requer planejamento e muita cabeça fria porque é algo que você terá que começar enquanto ainda estiver convivendo com essa pessoa tóxica e ainda vai duvidar de si e voltar atrás várias vezes até que finalmente entenda que não tem volta.

stone wall não é um joguinho de se fazer de difícil para chamar atenção, mas a única forma segura de se livrar do drama e do sofrimento e colocar um ponto final no abuso que você vem sofrendo. Tendo decidido pelo stone wall, guarde segredo absoluto e ensaie mentalmente a situação até sentir-se preparado para dar o primeiro passo que é afastá-lo do seu convívio diário.

Você vai precisar planejar cuidadosamente este afastamento, porque narcisistas tendem a reagir com violência e crueldade ao sentirem-se rejeitados. Você vai precisar observar o momento, criar circunstâncias e recorrer a subterfúgios para conseguir isso. Não hesite em pedir ajuda, mas seja muito cauteloso ao escolher seus confidentes para evitar cair nas mãos de um flying monkey - e, creia-me, muitas pessoas tiveram a desagradável surpresa de constatar não poderem contar com as próprias famílias para isso.

O ideal é poder contar com um intermediário absolutamente neutro e isento, como um advogado, por exemplo e deixar toda a negociação a cargo dessa pessoa, reportando-se a ela e a ela somente - sem exceção. A ideia é evaporar-se da vida do narcisista, e fazê-lo pode ser desconfortável e gerar alguma culpa. Se ajuda, lembre que o respeito é uma via de mão dupla: quem não dá, não merece receber; engula seco e vá em frente. 

Se está casado ou numa relação estável, existem questões legais que você não pode ignorar a não ser que esteja disposto a perder a guarda dos filhos junto com quaisquer bens que tenha compartilhado com o narcisista. Acredite-me: ele irá lutar com unhas e dentes para manter tudo exatamente onde está mesmo que já esteja desfilando publicamente com o novo parceiro e prometa de pés juntos "livrar-se" dele para ficar só com você. Isso é só uma estratégia para ganhar tempo até que consiga consumar sua vingança subtraindo tudo que lhe for mais precioso para então largá-lo como um saco de lixo - o que fará com um sorriso de grande satisfação e intenso prazer.

Se você tem filhos menores com o narcisista, o mais provável é que tenha que esperar até que atinjam a maioridade para conseguir afastar-se por completo, mas ainda assim é possível implementar boa parte do stone wall, tomando várias precauções como bloqueá-lo e aos seus flying monkeys em todas as redes sociais das quais participe e instruindo seus amigos e familiares a fazerem o mesmo. Também é importante estabelecer um sistema de contatos indiretos com ele, restringindo-os a emails e mensagens - evite até mesmo os telefonemas. E esses contatos devem ater-se somente às questões objetivas como horários em que ele virá pegar as crianças ou trazê-las de volta: não responda às provocações e não discuta em hipótese alguma. Tampouco permita que ele passe do portão da sua casa ou emprego: informe porteiros, colegas e vizinhos que tal pessoa não está autorizada a ingressar nas áreas comuns do condomínio. Se junto com o advogado tiver juntado provas suficientes, obtenha uma ordem restritiva e não hesite em chamar a polícia sempre que se sentir ameaçado.

Documente tudo. Acostume-se a manter uma agenda, registrando datas e horários para todo o contato que tiver com ele: você pode vir a precisar desses relatos em juízo ou numa delegacia de polícia e não pode confiar na própria memória, porque a tensão emocional e os desvios cognitivos que o narcisista implantou em você na "lua de mel" tendem a confundir sua percepção depois de algum tempo, e parecer confuso e inseguro diante de um juiz ou delegado não vai ajudar em nada.

Tipicamente, o narcisista desrespeitará os dias e horários estabelecidos para a visitação, tentando aparecer de surpresa ou ignorando as crianças por semanas, mesmo meses a fio para aparecer de uma hora para a outra coberto de sorrisos e com os braços carregados de presentes. Registre e documente tudo e informe seu advogado sempre que isso acontecer.

O ideal é poder contar com alguém que não esteja emocionalmente envolvido na situação para representá-lo em todos os contatos com o narcisista. Você pode combinar com um motorista profissional da sua confiança para levar e buscar as crianças nos dias de visita, por exemplo. E se o narcisista se recusar a devolver as crianças, não hesite em acionar a justiça: não é raro que eles usem desse artifício para forçar um tête-à-tête - que é a última coisa que você quer que aconteça, a não ser que goste de ser abusado verbal e, em certos casos, fisicamente.

Se o narcisista é que ficou com a guarda das crianças, a primeira coisa a entender é que ele (ou ela) as usará para chantageá-lo sem a menor consideração pelo prejuízo que suas ações venham a causar aos próprios filhos. Mais razão ainda para documentar absolutamente tudo. Considere usar parte do tempo que tem com as crianças para prover o amparo e assistência psicológica profissional de que certamente necessitarão nem que seja preciso agendar horários flexíveis ou especiais com o terapeuta: ele será uma peça-chave no caso que estará montando junto com seu advogado para obter a guarda e preservar seus filhos do sofrimento causado pelo convívio com uma pessoa emocionalmente perturbada.

Resista às tentativas de chantagem que se sewguirão. Ao contrário do que o narcisista tentará fazer parecer, ela não acabará no momento que você ceder, mas ficará cada vez pior. Ceder à chantagem de um narcisista é se colocar nas mãos de uma pessoa que não quer nada de bom para você e tudo que se relacione a você - incluindo seus filhos, mesmo que sejam filhos dele também. Ao ver-se preso à teia, em situações aparentemente sem saída, pense no amanhã, no que quer para si e, principalmente, na qualidade de vida que quer para os seus filhos e busque ajuda profissional. Aplique o grey rock: faça-se frio, duro e insondável como uma pedra cinza para o narcisista: não lhe dê nenhuma reação emocional e procure ganhar tempo até  você e sua rede de apoio encontrarem uma saída.

Nem todos os narcisistas são psicopatas, mas todos os psicopatas são narcisistas e estabelecer essa diferença é difícil até para profissionais especializados. Não tendo como saber se você e sua família correm risco real e imediato, é prudente partir do princípio de que esse é o caso e tomar as devidas precauções para reduzir e, se possível, eliminar os riscos. As crônicas policiais nos trazem exemplos diários de pessoas que falharam em se acautelar devidamente.

Agora, se você não tem filhos com o narcisista, todo o processo é bem mais direto desde que você aceite que provavelmente perderá bens e dinheiro no processo. Se tiver tempo, recursos e suficiente frieza emocional, você até pode manobrar para reduzir o prejuízo, mas já vou avisando: demanda tempo, sagacidade e muita diplomacia para conseguir se afastar de um narcisista sem deixar para trás alguns anéis e fios de cabelo.

O próximo passo é cortar todas as vias de comunicação e livrar-se de tudo que sequer lembre a existência dessa pessoa: fotos, presentes, cartas, mobília, roupas... o que for. Se puder, mude de casa, mude de ares, mude de círculos sociais. Afaste-se dos amigos dele e de qualquer amigo ou mesmo familiar seu que tente defendê-lo sem desculpas ou explicações. Troque todas as suas senhas e bloqueie o narcisista e todas as pessoas próximas a ele em todas as redes sociais de que participe e revise as configurações de privacidade dos seus perfis de forma a controlar o acesso às suas informações: nunca faça check-ins públicos em bares, restaurantes, academia, locais de trabalho, etc... não faça updates públicos e seja muito criterioso ao aceitar pedidos de amizade.

Apague o número dele do seu telefone e troque o seu número para não receber mais nenhuma ligação ou mensagem. E se recebê-los, não responda - de preferência sequer visualize emails e mensagens. Outra coisa: se o narcisista tinha acesso ao seu computador, tablet ou celular, a fim de evitar surpresas desagradáveis, procure o quanto antes um técnico e peça que faça uma varredura por atividades suspeitas e/ou programas espiões.

Tendo feito isso, discipline-se para não buscar online qualquer informação sobre a pessoa. E sempre que sentir aquela urgência em falar umas verdades, escreva numa folha de papel e depois queime tudo. Certifique-se de ficar fora do radar dele: narcisistas defendem com unhas e dentes o que consideram ser seu círculo de influência e a melhor maneira de se proteger dos seus ataques é deixar que siga agindo livremente dentro dele. Se recuse a ouvir fofocas ou novidades sobre o narcisista: a partir do momento que o tirou da sua vida, nada do que ele fizer o do que acontecer do outro lado do muro é da sua conta ou responsabilidade.

Creia-me: a menor concessão só vai servir para atrair ainda mais caos e sofrimento para a sua vida.

E não perca um segundo do seu tempo para tentar devolver na mesma moeda: a vingança é o piloto-automático do narcisista. Sequer cogite ficar por perto para ver quando ele quebrar a cara. Mais cedo ou mais tarde é exatamente isso que vai acontecer e, acredite em mim: isso não vai trazer a menor satisfação, não vai ajudar em nada na sua vida, a única coisa que esse tipo de pensamento faz é aprisionar você àquela pessoa e permitir que ela continue controlando os seus sentimentos. Entenda: o grey rock é uma estratégia a qual os próprios narcisistas recorrem com frequência como forma de afirmar o quanto são superiores, mas enquanto para eles isso é só um jogo de cena, para nós é o ponto final, significando que paramos de jogar e largamos mão de vez.

Pratique algum exercício físico para dar vazão à raiva que vai sentir à medida que se desintoxica e percebe a extensão do abuso, a crueldade das mentiras, maquinações e manipulações a que se submeteu por aquela pessoa. Sim, a consciência do quanto traiu a si mesmo e do quanto se sacrificou por alguém que absolutamente não o respeita como um ser humano é muito, mas muito revoltante. Mas isso é problema dele, não seu.

Nos momentos de fraqueza, entenda que você está se recuperando de um vício - literalmente. Os ciclos de sofrimento e êxtase que o narcisista criou na sua vida o deixaram viciado em emoções intensas. Todos sabemos o triste fim que aguarda os viciados mais cedo ou mais tarde na vida, e eu não quero isso para você. Você não quer isso para si mesmo.

Vai passar. Os primeiros dias podem ser bem difíceis, mas quanto mais tempo você passar totalmente alheio à mera existência daquela pessoa, melhor, mais fortalecido e mais em paz vai se sentir.

Finalmente, fica o conselho: não busque outro relacionamento sério enquanto sentir o menor impulso de dar uma lição no narcisista. Primeiro, porque é usar outra pessoa exatamente do mesmo jeito que o narcisista usou você. Segundo, porque está fragilizado emocionalmente e as chances de cair como um patinho nas garras de outro narcisista são imensas, particularmente dos que se disfarçam de ombro amigo, cheios de compreensão e conselhos dimensionados para desarmar as poucas defesas de que dispõe e abusar de você logo adiante.

Concentre-se mais em resgatar sua auto-estima pelos próprios meios: aproveite para estudar, viajar e se enriquecer como pessoa. Igualmente, aproveite para revisar alguns conceitos ultrapassados sobre si mesmo, o que quer, o quanto se dispõe a dar e o que merece receber em troca nos relacionamentos em todas as instâncias da vida. E tendo definido, cuide de nunca mais deixar por menos.

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