17 de mar de 2017

PRECISAMOS FALAR SOBRE O NARCISISMO - PARTE VIII: O QUE É MEU É MEU, O QUE É SEU É NOSSO


Essa é uma crença muito frustrante para quem precisa conviver com um narcisista em família, na escola ou no trabalho: ao mesmo tempo que protege com unhas e dentes o que considera "suas coisas", narcisistas não mostram o menor respeito e não têm o menor pudor em usar, abusar ou mesmo surrupiar os recursos alheios. Isso é feito de maneira mais ou menos ostensiva, dependendo do grau de dissimulação do narcisista.

Narcisistas dissimulados gostam de se mostrar generosos, comprando a lealdade dos outros com presentes e agrados - preferencialmente adquiridos com recursos de terceiros: é a famigerada cortesia com o chapéu alheio Se pretende levar a nova conquista numa viagem, por exemplo, os recursos necessários serão obtidos de colegas, amigos, familiares ou mesmo o parceiro-titular, com as "emergências" variando de tom e intensidade na proporção do empréstimo desejado: transporte, hospedagem, dinheiro para as despesas, seja o que for. E ele é capaz de elaborar com riqueza de detalhes as histórias mais trágicas e confidenciá-las a você com as mãos tremendo e os olhos marejados, se for preciso. Sei de um que tirou férias, redecorou o apartamento e gozou de um estilo de vida privilegiado por três anos com o dinheiro que extorquia de uma idosa convencida que estava ajudando com exames, consultas e medicamentos no tratamento de um tumor no cérebro da parceira dele.

Nem mesmo um saldo bancário bastante favorável inibe o narcisista de tentar viver às custas dos outros. Para obter esses recursos, ele pode prestar um pequeno favor à vítima do golpe, como oferecer sua preciosa presença para um jantar (a ser pago pela vítima), mostrando-se particularmente aberto e compreensivo, ouvindo suas lamúrias e aconselhando-a "de todo o coração", para pouco tempo depois pedir de volta algum favor: carro, roupas, dinheiro ou as chaves da casa de praia, e por aí vai.

No que tange a recursos e favores, independente da natureza, a relação com um narcisista é sempre assimétrica. Narcisistas delirantes consideram o tempo investido na presença de alguém capital suficiente para essa troca, enquanto os dissimulados cuidam de simular a reciprocidade inflando o significado e importância do que quer que estejam oferecendo em troca. Se você ligar num momento de necessidade, por exemplo, o narcisista cuidará de informá-lo que tem um compromisso importantíssimo para pouco mais adiante, então virá ao seu encontro controlando o relógio tão ansiosamente que, constrangido, você acabará agradecendo e dispensando-o - talvez para flagrá-lo sentado num bar com amigos meia hora depois. É que os tais "compromissos urgentes" nunca são tão urgentes - se é que existem de todo - como o narcisista gota de fazer parecer, mas sim uma estratégia que ele emprega para valorizar-se aos seus olhos, extorquindo sua gratidão sem dar absolutamente nada em troca. Porque ele sabe como nos sentimos em dívida quando alguém larga tudo para se fazer presente quando chamamos.

Narcisistas também podem usar objetos de sua propriedade para obter acesso irrestrito às residências de pessoas consideradas necessárias, "emprestando-os" ou deixando-os sob a guarda dessas pessoas pretextando algum incidente ou situação inesperada, manobrando para obter as chaves do local onde se encontram seus objetos, garantindo assim não só o livre acesso como o uso dos recursos do local (telefone, luz, cama, cozinha, o que for) com o adicional extra de lá poder se instalar em caso de necessidade e pelo tempo que julgar necessário - caso em que removê-lo antes que tenha encontrado outro refúgio se mostrará difícil, conflituoso e potencialmente arriscado.

Nada do que o narcisista faz é espontâneo muito antes pelo contrário: tudo é planejado, medido e dimensionado para servir a segundas intenções.

Como percebe objetos como extensões de si mesmo, eles precisam ser os melhores, maiores, mais vistosos e invejados, devendo ser expostos como obras de arte. Manipulá-los envolve alto risco, pois o menor dano é visto como uma ofensa pessoal. No nível psicológico, esses objetos são extensões físicas que servem para compensar deficiências do narcisista. A paixão do sujeito franzino por seu 4x4 trai um traço de narcisismo mensurável pela extensão da sua relação com o veículo, que pode ir cumulativamente da mera ostentação ao ciúme doentio.

Paralelamente, o narcisista desvaloriza tudo que é propriedade dos outros. O que é dele é para ser guardado e o que é dos outros, usado (senão abusado) e descartado. O zelo e apreciação que dedica aos seus objetos não se estende à propriedade alheia, por ele tratada de forma desdenhosa e desleixada mesmo que seu objeto seja um surrado par de calças jeans e o do outro um smoking. Essa desvalorização é ainda maior se o narcisista deseja para si o objeto de outrem, que ele barganha para comprar barato, para depois, ainda por cima, exibi-lo para terceiros, cantando vantagem do tolo que enrolou.

Quando abrimos as portas de nossas casas, o fazemos entendendo que o visitante obedecerá o código de conduta implícito em nossa cultura, permitindo-se algumas liberdades à medida que a amizade ou relação se aprofunda ao mesmo tempo que esperamos reciprocidade nessas liberdades. Isso não existe com o narcisista, que a partir do instante que avança da soleira da porta passará a testar deliberadamente os seus limites, e se você não se mostrar inflexível, ele não só tomará conta do ambiente como não mostrará o menor constrangimento em aparecer de surpresa a qualquer momento do dia ou da noite acompanhado de estranhos e incentivando-os a se comportarem com o mesmo relaxamento que demonstra ao atirar-se no sofá, revirar a geladeira ou as estantes, bisbilhotar pelos outros cômodos ou ligar a televisão como se estivesse em casa. Isso pode ocorrer de maneira mais ou menos dissimulada. Para forçar seus limites ele pode, por exemplo, se mostrar tocado e agradecido pela sua hospitalidade, ou confidenciar que o excessivo rigor do parceiro torna a própria casa um ambiente inóspito onde ele não se sente à vontade; ou pode simplesmente dispensar arrogantemente os seus protestos: tudo depende do grau de utilidade que atribuiu a você na escala das suas relações.

Por outro lado, se o visitante é você, sempre há alguma coisa impedindo que se sinta à vontade na casa do narcisista. Às vezes é um sentimento vago, por mais solícito que ele se mostre, que impede que você relaxe naquele ambiente. Muitas vezes é porque soube pelo narcisista das "manias" do parceiro ou outras pessoas que lá residam, e para evitar qualquer inconveniente ao anfitrião, você cuida de obedecer às "regras da casa". Seja como for, é difícil sentir-se "em casa" na casa de um narcisista na mesma proporção que ele parece sentir-se à vontade na sua casa.

Empréstimos ao narcisista são a fundo perdido. Seja dinheiro ou objetos, tendo conseguido por as mãos em alguma coisa sua, é muito difícil que venha a devolver, podendo "perdê-la" se você insistir muito. É uma coisa tão absurda que ele pode chegar a jogar fora o que tomou emprestado só para não devolver. Os empréstimos são outra estratégia que narcisistas usam para conhecer os seus limites enquanto determinam o seu grau de "utilidade".

Não é raro que a iniciativa para criar uma relação de trocas desta natureza parta do próprio narcisista, que tentará emprestar ou mesmo "doar" alguma coisa, via de regra algo de que ele queira se desfazer e que para você tem igualmente pouco uso ou necessidade como uma peça de vestuário, por exemplo; insistindo e argumentando ante a sua recusa de forma a constrangê-lo a aceitar. Tendo aceitado esse "favor", você naturalmente se sentirá obrigado daqui para a frente a corresponder. Não surpreendentemente, no entanto, os objetos e/ou favores que ele virá a pedir em troca serão incomparavelmente mais valiosos e úteis, e se não tiver seus limites muito firmes e claros, você pode facilmente chegar a ponto de se privar de coisas das quais necessita para atendê-lo.

O que é preciso entender disso tudo é que independente da natureza da sua relação com um narcisista, ela sempre será não-recíproca e assimétrica, com a balança pendendo cada vez mais para o lado dele. E quanto mais o narcisista dever, mais vai lhe cobrar e mais à vontade mais à vontade vai se sentir para tomar o que quiser quando e como lhe aprouver.

E isso vai seguir acontecendo até que você entenda que se depender do narcisista, sua obrigação é entregar todos os seus ovos de ouro sorrindo e mostrando-se agradecido pelos ovos podres que recebe em troca.

Simples assim.

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