6 de jul de 2014

ELA, A ESCOLA


O que eu sinto estar errado no sistema de ensino é uma questão estrutural, de princípio, de como currículos são rigidamente estabelecidos e impostos tendo seus conteúdos exigidos à totalidade dos indivíduos no mais total e absoluto desrespeito à individualidade.

Não somos máquinas, "educação" não é um "processo" como produzir sapatos ou eletrônicos.

Educar (propriamente) uma criança é acima de tudo e antes de mais nada, uma interação. Não é um "processo" ou "procedimento" - atividades essencialmente unidirecionais em que um objeto sofre a intervenção de um sujeito. Não sei quanto a você, mas quando olho para uma criança, qualquer criança, vejo TUDO menos um objeto. Vejo um mundo, um manancial, um infinito de possibilidades; o divino em sua mais autêntica e pura expressão.

E me dói pensar que aquela centelha de vida, de amor, de pureza e curiosidade logo logo estará sendo violada, tripudiada, reduzida e diminuída pela máquina da "educação" - o mais eficiente dos mecanismos de opressão do estado, pois oprime de fora para dentro e reprime de dentro para fora.

Sim, não é "economicamente viável" pensar-se numa escola que não produza "conhecimento" de forma seriada e massiva.

Sim, não é "economicamente viável" a abolição do "currículo" pelo menos nas séries iniciais.

Ainda assim, é o que precisa ser feito. Urge que seja feito.

O que a ciência já revelou sobre a química e o funcionamento do cérebro humano por si só já basta para entendermos que NÃO EXISTE UM INDIVÍDUO IGUAL AO OUTRO NO PLANETA. Somos todos únicos. Cada um de nós experimenta, apreende, aprende e vivencia a existência de forma única. Cada indivíduo tem seu próprio ritmo de aprendizado, e suas próprias inclinações, que o levarão a interessar-se por temas de diferentes naturezas em momentos diferentes de sua evolução intelectual e emocional.

O que acontece quando a escola entra em nossas vidas?

Subitamente nossa curiosidade natural, nossa sede espontânea de conhecimento que é por natureza dinâmica, rica e variada; é bloqueada, canalizada e redirecionada para o que a sociedade determina e impõe como relevante ou importante tendo por critério unica e exclusivamente nossa futura utilidade (sim, utilidade) para o sistema econômico que a apoia.

Somos forçados, somos coagidos e obrigados a acumular pacotes pré determinados de "conhecimento" sobre temas pré determinados e numa ordem pré determinada; sob pena de sofrermos vexames, humilhações e toda a sorte de ataques pejorativos e aflitivos à nossa integridade (quando não sanidade mesmo) psíquico-emocional. Ataques esses cujos efeitos seguiremos sentindo ao longo de nossas vidas.

À indústria-escola não interessa se nunca na vida vamos encontrar um emprego prático para a fórmula da bhaskara: à indústria-escola tão somente interessa que a fórmula de bhaskara é "conteúdo obrigatório".

À indústria-escola tampouco interessa se em nosso "aprendizado" atingimos um nível mínimo de compreensão da fórmula de bhaskara, a sintetizarmos a complexidade do seu significado de maneira que nos habilite a dominar seus usos e aplicações e a empregá-la criativa e/ou construtivamente: à indústria-escola basta que tenhamos demonstrado nossa capacidade de aplicar mecânica e repetitivamente a fórmula de bhaskara aos modelos que pré-determinou com a variação mínima requerida pela eventual necessidade futura dessa "ferramenta" em outras áreas, e que isso ocorra o mais rapidamente possível para desocuparmos o assento deixando-o livre para o próximo bloco de "matéria-prima".

O problema com a maneira como educamos nossas crianças, e que resulta justamente na perplexidade e frustração de 9 entre 10 educadores que ainda se importam com o que estão fazendo nesta vida; é que o sistema escola-indústria é um monumental equívoco histórico.

Ele tem uma gravíssima falha de origem, de concepção: conhecimento não se forja a ferro e fogo como vem sendo feito desde a Revolução Industrial - aliás, pare e pense: não é no mínimo intrigante a coincidência existente entre o surgimento da escola como instituição e a Revolução Industrial? Porque foi lá, naquele momento, que a escola abriu as portas para o povo. E somente e tão somente (me repito para enfatizar) porque a indústria precisava de gente devidamente treinada para operar as suas novas máquinas, e capaz de ler os manuais de instrução para repará-las.

A escola "universal"*, seguida pelo "ensino obrigatório" que culminou na atual indústria-escola tem suas raízes na ECONOMIA, não na pedagogia. A pedagogia veio a posteriori, para tapar os buracos, para apontar os culpados sejam pais, alunos ou professores, mas nunca o sistema em si... Enfim, a pedagogia foi criada para tentar resolver os problemas que seguiram e seguem aparecendo, porque a RAZÃO de ser da indústria-escola tem um erro de ORIGEM. E ninguém precisa ser um Einstein pra saber que pau que nasce torto cresce torto e acaba morrendo torto ou apodrecendo e caindo por si.

Os sinais dessa podridão estão por aí, por todos os lados: no estágio de complexidade praticamente inadministrável que atingimos neste Terceiro Milênio, e no rastro dessa (doente) visão mercantilista do mundo e das interações humanas, "educação" é só mais um sistema econômico, mais um mercado, mais uma atividade para gerar renda e capital, mais um "produto". E quanto maior o interesse econômico, quanto mais capital um produto gera, maior a resistência da indústria em mexer na sua forma ou, no caso, na essência desse produto.

Mas é PRECISO, é URGENTE que se comece a pensar numa revolução aí. O futuro da humanidade depende disso.

Ouvimos diariamente a gritaria frustrada de uma legião de educadores e pedagogos sobre o crescente, o gritante a galopante empobrecimento da educação. Sobre o crescente, gritante e galopante declínio no "desempenho" dos alunos. Quem olha de fora como eu, não cansa de se abismar com a crescente, gritante e galopante estupidificação da humanidade como um todo.

E não pode ser diferente quando pelo erro de origem do sistema de educação vigente, o entretenimento acaba sendo a única dieta oferecida à curiosidade natural do ser humano. Uma dieta de fast-food em sua imensa, em sua esmagadora maioria.

Não digo que essa revolução de que falo deva se estender aos níveis ditos superiores da educação. Não sei, não pensei nisso. Por ora, só posso pensar que se os alunos chegassem a esses níveis de aprendizado tendo já satisfeita a sua curiosidade natural e definidas as suas inclinações; naturalmente chegariam a esses níveis dotados tanto das bases como da disciplina necessárias à extensão e aprofundamento desses conhecimentos.

Enfim, meu foco aqui é a infância, para quem é, repito, URGENTE e ESSENCIAL que reformulemos as estruturas e flexibilizemos os currículos, para que estimulem, que instiguem, que catalisem, enfim; a curiosidade natural (e essencialmente efêmera) que toda a criança tem sobre o que quer que a interesse a cada momento; ao invés de seguir impondo regras e barreiras e desvios que confundem e obstruem esse fluxo, gerando complexos, resistência, aversão, frustração e alienação da própria natureza e inclinações únicas em cada indivíduo.

O conhecimento penetra. E nisso demonstra ter a mesma qualidade da água. Se for demais, encharca o solo e se perde. Se for de menos, a terra se torna árida e infecunda. Como a água, o conhecimento deve ser distribuído com gentileza e em respeito às peculiaridades de cada tipo de solo.

Alguns requerem regas mais volumosas e frequentes para frutificar. Outros do pouco que recebem conseguem florescer em miríades de formas. Outros necessitam a adição de complementos que os tornem mais férteis.

Um mestre ou professor não tem condições de atender a demandas tão específicas quando tem ao seu cuidado mais de 10 ou 12 crianças.

Tampouco as diferentes proporções e variedades na dosagem desses conhecimentos podem ser respeitadas dentro de um sistema rígido e inflexivelmente atrelado a critérios quantitativos e competitivos que premiam ou punem indivíduos pelo atingimento de metas pré-estabelecidas.

Uma escola orgânica, dotada de maleabilidade para aceitar e estimular a unicidade de cada criança; seria uma escola de paz, de serenidade, de cooperação; provendo incontáveis oportunidades não só de multiplicação de conhecimento, mas de aprofundamento pessoal, de auto-conhecimento.

Pois é através dos assuntos aos quais nos inclinamos, dos temas que ressoam dentro de nós que começamos a nos identificar como pessoas, e encontrar nossos rumos e nosso caminho nesta vida.

Se tais oportunidades nos são negadas, como viremos a identificar nossa real inclinação e buscar as atividades que nos integrem e estimulem a crescer como pessoas, como indivíduos?

Não me surpreende nem um pouco que tantos cheguem aos 30, aos 40, ou mesmo aos 50 anos sem a menor noção do que querem fazer nesta vida; ou mesmo tendo já feito muita coisa, conquistado carreiras e estabilidade financeira, se sintam frustrados, abatidos e vazios de sentido.

Como poderia ser diferente, se durante todo o período em que deveriam estar provando e testando sua curiosidade e interesses, ao invés de serem estimulados nessa busca foram forçados ou mesmo coagidos a dispender ou mesmo restringir seu imenso potencial pessoal a temas por eles então percebidos como totalmente desprovidos de relevância?

Que oportunidade foi-lhes dada para desenvolver em si a curiosidade, o interesse, a observação, e a introspecção que natural e necessariamente as segue?

De que ferramentas a escola-indústria os proveu para ingressar no mundo adulto como criadores da própria existência?

E, finalmente, qual ou quais as válvulas de escape que cada indivíduo acabou desenvolvendo para dar vazão à sua curiosidade natural? Alienação e escapismo.

Alienação de si, e fuga do que é percebido ora como caos, ora como vazio interior.

Como adulto e pai, esse indivíduo só poderá gerar mais indivíduos alienados de si e fugindo do que é ora percebido como caos, ora como vazio interior. É tudo que tem a oferecer a seus filhos intelectual e emocionalmente.

Sim, eu sei que é muito difícil reverter as engrenagens. Mas essa engenhoca enferrujada e cheia de remendos ainda movida a vapor não nos serve mais neste Terceiro Milênio, e precisa mudar.

Precisa mudar logo. Radicalmente.

Fica o pensamento nesta manhã chuvosa de domingo.

Namastê!

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* Não sou de maneira alguma uma elitista contrária ao ensino universal e obrigatório. O que vou contra é a maneira e a estrutura desse ensino universal, e isso se aplica a escolas públicas e privadas, salvo raríssimas exceções.

21 de mai de 2014

AÇÃO <===> REAÇÃO


Um contexto cultural que confunde prudência com insegurança, temperança com hesitação, cautela com temor e passividade com falta de auto-estima; nos empurra cotidianamente às reações imediatas, a falar e agir antes de pensar.

Reagir ao impulso, ao sentimento não-elaborado, ao calor do momento, enfim; leva inexorável e invariavelmente ao conflito, mágoa, frustração, arrependimento e, no longo termo, à ansiedade, à depressão e outras severas aflições emocionais.

Vamos combinar: não é um bom caminho para se alcançar a felicidade. Porque é o CAMINHO DA DOR.

Tenho falado muito em se "viver o momento".

Meditando agora há pouco, senti que a expressão que tenho usado com tanta frequência precisa ser explicada, pois dependendo de COMO esse momento é vivido, pode-se avançar tanto no caminho da dor como no da felicidade.

"Viver no momento", ao contrário do que o termo sugere, é a atitude PASSIVA, de contemplação, concentração, observação e perspicácia que desenvolve o auto-conhecimento - que é o ÚNICO CAMINHO VÁLIDO PARA A FELICIDADE.

Como você pode aspirar à felicidade sem conhecer suas motivações mais profundas?

Em termos práticos, é desenvolver e aplicar a disciplina de suspender momentaneamente toda a ação e perguntar-se de onde está vindo a vontade de falar ou reagir dessa ou daquela maneira.

Essa é a chave para se alcançar o famoso "conhece-te a ti mesmo".

Perdeu a oportunidade de usar o sarcasmo e desarmar o "oponente"?

Tanto melhor! NINGUÉM é seu oponente neste mundo! Mesmo (eu até diria PRINCIPALMENTE) as pessoas por quem temos ojeriza, com as quais não conectamos em plano algum, estão aí para NOS ENSINAR, não nos boicotar, ou sabotar o nosso crescimento.

Se você vê qualquer inimigo ao seu redor, troque os óculos: está olhando o mundo pelas cores erradas.

Se vê ou sente ameaças, olhe para dentro: elas estão EM VOCÊ. É a maneira como você reage a obstáculos e desafios que precisa ser revisada mesmo estando convicto da SUA verdade e que o outro é que está errado.

A SUA verdade não invalida a verdade de ninguém. O que existe aí para ser ponderado é a ORIGEM dessa sua verdade, da sua convicção:

É algo que você realmente sente, ou é uma verdade aprendida de convicções incutidas por condicionamento familiar, social ou cultural? Será uma verdade que você SENTE lá no fundo da alma, do coração; ou uma verdade à qual se agarra por status ou aceitação social?

E não estou nem entrando na seara do "outro", porque questionar a SUA verdade NÃO IMPLICA em aceitar a do outro como mais absoluta ou verdadeira - isso é irrelevante ao processo de crescimento pessoal: cada um sabe de si, e não cabe a nenhum de nós julgar, impor, repreender ou reprimir ninguém neste mundo: o outro a quem você está reagindo é sempre movido pelas próprias verdades que para ele são tão reais e absolutas quanto as suas. Confrontá-las ou não é o caminho DELE, não o seu.

Questionar as próprias verdades é buscar a autenticidade consigo mesmo, é tornar-se senhor e mestre da própria vontade, e tomar as rédeas da própria vida tendo como compasso absoluto a sua essência, a sua natureza que é ÚNICA e que não pode (nem deve) ser influenciada por qualquer fator externo; nem nas piores adversidades.

E, em essência, TODOS somos AMOR. Todos queremos e buscamos amor. Todos queremos acolhimento, aceitação, plenitude, enfim.

Mas, (e sempre tem um senão) porque desconhecemos nossas chaves, nossos próprios botões - enfim,  o que nos move nesta vida; tendemos a buscar MAIS o acolhimento, a aceitação, a plenitude no OUTRO do que em nós mesmos. E assim ocupados em buscar fontes externas, descuidamos de construir em nós mesmos as bases para que acolhimento, aceitação e plenitude criem raízes dentro de nós.

Sim, "criem raízes": porque o processo é subterrâneo, é INTERNO, vem de dentro para fora.

É o processo de se deter a cada momento e avaliar o que nos move, o que motiva nossas escolhas, nossas reações.

Não falo em ações, porque a falta de auto-conhecimento obstrui qualquer possibilidade de ação, limitando-nos à REAÇÃO. Andamos às cegas por aí tropeçando, caindo e esbarrando nos outros e ainda os culpamos pelos cortes, fraturas e arranhões.

E com isso voltamos, à AÇÃO <===> REAÇÃO, porque "AÇÃO" é um dos pilares da nossa sociedade. Vivemos num ambiente que cultua "pessoas de ação". Todos querem agir ao mesmo tempo. Todos querem ter a iniciativa, o impulso, a motivação: construir, prosperar, acumular. "A melhor defesa é o ataque" é a frase ecoada aos quatro ventos. Essa mentalidade sugere um ambiente hostil, no qual para sobreviver é preciso estar-se constantemente na defensiva, fechado, encastelado na própria torre e disposto a pulverizar qualquer ameaça.

Nos apegamos a pessoas, posses e status como se eles nos definissem como indivíduos; e percorremos o mundo em nossas brilhantes armaduras apregoando ideais que nos façam parecer nobres e elevados.

Mas não somos: nosso cordão umbilical pode ter sido cortado no parto, mas segue bem enroladinho e apertado dentro de nós clamando pelo calor e segurança do útero de onde tão abrupta e violentamente fomos expelidos.

Quanto menos nos abrimos a essa verdade, menos conscientes somos do que realmente nos move. Até o monje budista com todo o seu desvelo e desprendimento busca o útero pelo Nirvana.

A primeira grande verdade a ser confrontada, aceita e liberada é a perda TOTAL e IRREMEDIÁVEL desse útero como um fator externo:

NENHUMA circunstância externa da vida o trará de volta.

Esse perfeito equilíbrio de segurança, envolvimento, pertença, entrega pacífica e unidade com outro ser é o paraíso perdido com que nos defrontamos no instante que sentimos o doloroso contato com o frio da sala de parto, do áspero tecido em que nos envolvem, da fome que subitamente irrompe em nossas entranhas. Fome (a raiz do medo, porque padecemos sem alimento), sentimento até então desconhecido, porque saciedade era um fluxo constante e não precisávamos fazer absolutamente nada.

A vida no útero é uma vida de INAÇÃO. Quando muito, reagimos a algum estímulo externo, algum barulho súbito, alguma agitação no organismo que nos abriga.

Então, nascemos.

AÇÃO <===> REAÇÃO

Para a maioria, a vida daí em diante segue em círculos: partimos buscando no ambiente as condições que supram a falta desse útero, não as encontramos, nos decepcionamos, sofremos e retomamos a busca sem nunca questioná-la em primeiro lugar.

Só existe um jeito de quebrar esse círculo (vicioso!), de transformá-lo numa reta e evoluir: identificar em nós essa busca, tomar nos braços esse bebê com todo o carinho e explicar para ele que o útero se foi, e que não há nada no mundo que possa substituí-lo.

O melhor que podemos fazer é adequar nossas expectativas à realidade do ambiente em que vivemos, cientes que nada nem ninguém é CAPAZ de recriar aquela situação; mesmo que tentem com toda a vontade, com todo o amor e dedicação.

Faça isso por você mesmo.

Faça hoje, comece agora: aceite a vida como ela é, e seja grato por ter sobrevivido à perda da condição ideal e ainda assim acreditar que, sim, há magia e beleza de sobra para sorrir e amar a si e aos outros, por tudo e apesar de tudo.

Só esta AÇÃO curadora sobre nós mesmos pode nos libertar do círculo vicioso da REAÇÃO e nos elevar à condição de agentes do nosso próprio destino.

17 de mai de 2014

MEU CAMINHO


Sei que eu prometi falar sobre essa doença contemporânea de tornar tudo que é feio, mau, assustador fofinho, lindinho, sexy e limpinho, mas hoje eu quero escrever livremente o que me vier à cabeça, sem um tema pré-definido.

Talvez até porque tem muito a ver com essa mesma mania de fazer tudo dourado, sexy e cor-de-rosa que anda por aí; junto com uma outra doença que aflige a sociedade moderna que é o tal "poder da mente", o tal "pensamento positivo", essa ideia mágica e infantilizada de que basta botar uma ideia na cabeça e você vai ter sucesso, ser feliz e, de quebra, ficar podre de rico.

Para a maioria das pessoas que vivem presas à matrix, isso já ganhou força de lei.

E quem não anda por aí se fazendo de bem resolvido, quem tem a honestidade de se expor como realmente é: um ser pensante que tem mais dúvidas que certezas, que se permite momentos de introspecção e melancolia - por que não?; é visto como um derrotado, uma influência ruim gerando campos de energias "negativas". Um leproso energético espalhando sua doença por aí.

Pessoas "bem sucedidas" não têm dúvidas: estão SEMPRE certas! E, se porventura alguma sombra de dúvida arrisca anuviar o horizonte, ela é escorraçada com fórmulas mágicas, distrações e sorrisos forçados.

Como se não bastasse o hipnotismo da mídia, as pessoas andam se auto hipnotizando por aí, como se parar na frente do espelho e repetir "Eu sou feliz! Eu me basto!" fosse a a chave do paraíso.

Nada poderia estar mais longe da verdade.

A "chave do paraíso" - se é que existe tal coisa; é enfrentar os próprios demônios, permitir-se descer aos confins do inferno com a confiança de saber encontrar por sua própria conta e risco o caminho de volta; e renascer das próprias cinzas. É se tornar o "leproso" de quem os pseudo-bem-sucedidos fogem como o diabo da cruz. É se submeter ao isolamento, condição essencial para começar o processo de busca que leva ao discernimento entre o que é de fato a nossa natureza, o que nos foi impresso pelo ambiente em que crescemos e com quem convivemos, e quem sentimos que devemos ou queremos ser.

Isso requer mais coragem do que levantar de manhã, pintar a cara, plantar um sorriso na frente do espelho e sair pra rua vender o próprio peixe. E dá-lhe batom pra tanto sorriso e creme pra tanta ruga de sorriso artificial. (Cá entre nós, fico com as minhas rugas, porque quando eu rio, eu rio com a alma, com todo o corpo e o coração e quero mais é me olhar no espelho e ver essas rugas todas: cada uma delas é a marca de uma grande emoção por que eu passei).

Porque é lá, sozinho no deserto de brasas, sem NINGUÉM para ajudar, que você vai conhecer a medida e a extensão da sua força; sua fibra, sua vontade de viver.

Lá, no calor desse deserto, você encontra a verdade. A SUA verdade, que é única e não interessa a ninguém mais.

E é lá que você ou transcende ou se perde de vez.

Porque o deserto de brasas não é para os desesperados, nem para os fracos de coração.

É a provação do guerreiro: porque é lá, onde toda a esperança fenece que a gente vai buscar lá no fundo da própria alma a sementinha da criação, que não é maior do que um ínfimo grão de areia, e no começo mal dá para iluminar a palma da mão.

O primeiro momento é desolador: então é isso? Isso é TUDO que me restou? É tudo que existe em mim?

Sim.

É tudo: o universo inteiro cabe num grão de areia.

E nesse momento, nesse próprio pensamento, descobrimos que o NOSSO UNIVERSO INTEIRO está contido naquele ínfimo grão de areia.

É quando se começa a sentir o calor nas palmas das mãos e se sabe que neste calor está a cura, porque o grão de areia se expande e contrai com as batidas do nosso coração.

Em algum tempo, ele mais parece uma pérola. Ainda é pequeno, mas apresenta uma forma mais ou menos definida. Podemos pegá-lo entre os dedos, manipulá-lo, observar seus contornos, a luz que cintila. A luz da Paz interior, da certeza de que essa pequena pérola que é todo o nosso universo é tudo de que precisamos para começar a caminhada.

É quando entendemos (finalmente!), a dimensão da nossa imortalidade: pois nosso ego morreu, acabou, jaz no chão como um monte de farrapos que já não nos serve mais. E ainda assim, estamos vivos.

Quando todos esperam que sigamos nos debatendo em dor e negatividade; sorrimos com a alma.

Falamos de coisas que ninguém entende.

Vemos dimensões no mundo como poucos (privilegiados) conseguem ver.

E parecemos loucos aos olhos deles.

Logo nos cobrarão "coerência", "equilíbrio", "sensatez"... RESISTA! Tudo que estão pedindo é que você volte a ser aquele monte de farrapos, porque sua Luz incomoda: os faz cientes dos próprios farrapos - melhor mantê-lo na zona de conforto.

Tenha paciência: eles só estão evitando a dor. Mais cedo ou mais tarde, ela virá, porque vem para todos.

Tenha compaixão: nem todos estarão dispostos a pagar o (alto) preço do crescimento. A maioria ainda assim seguirá presa aos velhos padrões, acrescentando novos farrapos para cobrir as partes que ficarem expostas. Podemos lhes apontar o caminho da Luz, mas não podemos percorrê-lo por eles.

Seja flexível: você não pode se furtar à convivência com nível menos elevado de vibração. Elas são a maioria, então melhor é aceitar o fato e se adaptar.

Evite a crítica: só porque você descobriu a SUA verdade, não quer dizer que ela se aplique a ninguém mais. Ela é sua, e cada um tem livre-arbítrio para descobrir a própria verdade do jeito que melhor lhe convier. Se a sua verdade o levou ao veganismo, não critique quem come carne. Se a sua verdade o levou ao Budismo, não critique quem não segue o Caminho do Meio.

Ter vencido sua provação e alcançado sua própria Luz não faz de você uma pessoa melhor do que os outros; apenas uma pessoa melhor para você mesmo e PARA os outros.

Esta é a MINHA verdade.

É o que aprendi e sigo aprendendo a duras penas desde que a carta da Torre desceu sobre a minha vida pulverizando todas as certezas, hábitos, ilusões e acomodações.

Ainda não estou livre de recaídas, mas sigo andando.

Comecei me arrastando sobre um braseiro, agora já caminho em meus próprios pés.

Ao longo desse percurso me deparei com inúmeras miragens: distrações, soluções fáceis, ilusões de conforto que só serviram para aumentar a dor e o desespero.

Estou aprendendo a identificá-las no ato. Vejo as montanhas ainda ao longe, e é para lá que vou. Para o alto daquela que me chama e que eu sei que é onde mereço e devo estar, porque é lá que encontrarei a minha plenitude: quem eu melhor sou, o que de melhor eu sei fazer, minha razão de viver.

Sim, ainda piso em brasas; mas meus pés já quase não sentem mais sequer o calor.

Por estranho que pareça: está valendo cada minuto, e sou grata à vida por ter me colocado aqui; porque o que estou ganhando é muito, mas infinitamente mais gratificante que um sorriso de batom na frente do espelho seguido de um dia de expectativas frustradas.

Espero por nada: eu é que faço o meu destino. O carrego nas mãos, no calor do grão de areia que orbita e cresce ao meu redor, segundo a minha vontade.

Estou viva, e meu aprendizado faz de mim uma curadora de almas num tempo que nega o espírito e cultua a matéria, o imediato, o superficial.

Este é o meu caminho.

Agora vá buscar o seu. Não posso mostrar o caminho, mas estarei aqui torcendo e ajudando no que puder.


NAMASTÊ!

26 de abr de 2014

O TAL DO "PENSAMENTO POSITIVO"


"Pense posivito e o universo responderá."

Este é o mantra da atualidade. A ponto de virar obrigação, e se algo ruim acontece, é sua culpa: você não "mentalizou" de forma suficientemente positiva.

"Dicas" para ser mais positivo e alcançar o "sucesso" seja em que área for, vêm rendendo milhões à indústria da informação e alguns poucos "facilitadores" de plantão.

E, no centro desse bombardeio, estamos nós, meros mortais. Seres falíveis, sujeitos a inseguranças, medos, dúvidas e crises de toda a sorte; angustiados em focar em tudo que move, tudo que muda, tudo que é transitório; presos à ilusão de que projetando pensamentos e energias "positivos" seremos capazes de manipular esses movimentos para que atendam aos nossos anseios. Envolvidos no malabarismo diário de manter no ar todas essas bolas enquanto a vida nos carrega vertiginosamente por rios e montanhas, prestamos mais atenção aos movimentos caóticos de nossas mãos do que ao fantástico cenário a renovar-se constantemente ao nosso redor. E nisso, a cada dia, perdemos mais um pouco da perspectiva sobre nossas próprias vidas.

É muito difícil ser "feliz" e "positivo" quando se vive angustiado tentando controlar pessoas e circunstâncias ao nosso redor.

Ainda mais porque sabemos, lá dentro, lá no fundo; que não temos esse poder. Mas nos falta paciência para esperar que o tempo aja por si: queremos precipitar as coisas, porque a nossa criança está fazendo a maior gritaria dentro de nós. Nossa criança quer. E quer para si, mesmo que isso implique em privar os outros. Nossa criança não se importa com mais ninguém: só ela existe em todo o universo. Logo, o universo TEM QUE DIZER SIM. SEMPRE.

"Pense positivo e o universo responderá" é uma fórmula que SÓ FUNCIONA se o seu pensamento está alinhado com o propósito do universo. E aqui, a má notícia: o propósito do universo não é satisfazer suas vontades, vaidades e pulsões.

O universo tem propósitos próprios e não está nem aí para nós.

Tampouco deuses, anjos, santos ou entidades estão aí para atender nossos caprichos, então, pode "pensar positivo" o quanto você quiser: o universo, seu deus, seus anjos, santos ou entidades seguirão de ouvidos moucos:

Enquanto seu "pensar positivo" seguir sendo a projeção da sua vontade sobre coisas, pessoas ou circunstâncias, você vai seguir vivendo às escuras, envolto no véu da ilusão; sofrendo e se angustiando porque as coisas "não saíram como eu queria".

Esse "pensamento positivo" que lhe venderam é o pensamento mágico, a ilusão de poder que um bebê que sofre quando privado do seio materno exerce sobre o ambiente. Esse "pense positivo e o universo responderá", na verdade empurra você para uma posição de impotência, de fraqueza: você vai lá, mentaliza, energiza, bota toda a sua vontade nisso ou naquilo e... nada! Daí se frustra, se angustia, se deprime e enfraquece mais ainda.

A gente só assume o controle sobre a própria vida quando entende que o único controle que realmente exercemos é a forma como reagimos a esta ou aquela coisa, pessoa ou circunstância.

Não existem fórmulas mágicas para se viver.

Infelizmente, é difícil alcançar esse entendimento sem dor, sem perda - na verdade sem uma grande perda -, sem frustração, sem chegar ao fundo do poço.

Porque é lá, no fundo do poço, quando toda a Luz parece ter lhe abandonado e toda a esperança e propósito se esvaem; que você se vê como realmente é: uma jornada única, solitária por definição, pois os maiores eventos da sua existência (nascimento, iluminação e morte) só podem ser experimentados na solidão. Nem seus pensamentos podem ser compartilhados. Alguns conceitos e ideias, sim; mas esse fluxo constante que nos absorve diariamente e único e solitário por natureza.

E essa solidão não pode ser preenchida por coisa alguma, pessoa alguma, evento ou circunstância alguma. Só você pode preenchê-la com aceitação, compaixão e amor a si mesmo.

"Pensar positivo" não tirou nem NUNCA VAI TIRAR ninguém do fundo do poço: essa é uma força que só emerge dentro de nós quando já estamos no processo de subida.

Abrir mão do controle, restringir toda a ação, toda a palavra ao absolutamente necessário. Essa é a lição a ser aprendida no fundo do poço. Um pouco de distração é bom, mas uma alma ferida não se cura no turbilhão do mundo: só piora. Porque o turbiilhão do mundo é a fogueira das vaidades e das vontades; é a Roda de Samsara, o reino do ego.

E, acredite em mim e em todas as religiões realmente espiritualizadas: o ego não é o melhor amigo da alma, porque ele está mais identificado com a criança e seus quereres e inquietações com tudo que se move e é transitório, do que com o que está calmo ao seu redor, que é do que a alma se ocupa.

Uma alma se cura na calma e no silêncio. É por isso que toda a religião espiritualizada aconselha o recolhimento, aconselha a introspecção; a olhar para dentro pesando e analisando os próprios anseios à luz das nossas crenças e convicções. E nessa análise, reavaliar a ambos com a mesma frieza de um cirurgião. É quando a gente descobre que andava baseando a própria vida em modelos que não nos servem bem, por mais que (aparentemente) sirvam a todos ao nosso redor. Igualmente, concluímos que muitos dos anseios que tanto nos afligem têm bases frágeis, quando não questionáveis: e encontramos satisfação maior em abrir mão deles.

Não tenha medo de fazer essa análise. E, se no processo, descobrir que vinha deixando de lado tudo aquilo que realmente importava para você; reverta essa roda. Sobre isso, você tem controle.

Esse é TODO o controle que você tem na vida: o COMO VIVÊ-LA.

Você não controla o "com quem", o "quando", o "quanto"... mas você tem pleno controle sobre o onde - será que está vivendo no lugar onde se sente melhor?

Você tem controle sobre suas ações, sobre as coisas que faz para prover seu sustento - será que está na profissão certa para você?

Você tem controle sobre suas escolhas, sobre o que priorizar na vida; mesmo que isso implique contrariar a todos ao seu redor. Até porque, cabe a você e só a você escolher como é que vai lidar com essas reações, o quanto vai permitir que interfiram no curso que traçou para si mesmo.

Quando começar a formular essas perguntas, você vai começar a sentir que está se mexendo, levantando e erguendo os braços para começar a subida. A cada resposta, vencerá alguns centímetros.

E não se assuste se cair de volta mesmo depois de ter subido alguns metros. Não se recrimine: somos humanos. Não precisamos nem podemos acertar sempre. Se cair, dê-se um abraço, um chamego. Encontre conforto lembrando que a cada lição aprendida, um erro não voltará a ser cometido.

E confie. Acima de tudo, confie. Seja honesto consigo mesmo, e confie.

Quanto mais honesto você for, quanto mais sincero for o propósito que colocar cada vez que, agarrado às paredes lisas do poço e tremendo de medo de cair, você ousar soltar uma das mãos para alcançar um pouco mais acima arriscando perder o equilíbrio precário que a tanto custo conquistou; mais o universo o apoiará para que avance.

"Pensar positivo", mais que projetar sua vontade de forma infantilizada sobre o mundo, é resgatar de dentro de si a própria verdade e projetá-la sobre sua vida, efetuando as mudanças de que necessita e sobre as quais tem poder de decisão e mudança.

NAMASTÊ!

7 de fev de 2014

LEMBRANÇA INVENTADA



SE ME ALEMBRO BEM...

Era a senha.

As mãos trêmulas, de dedos nodosos e enrugados tateavam incertas os bibelôs na cristaleira, perfilados como recrutas diante da bandeira a tremular nos embaçados olhos descoloridos.

Com um suspiro, nos resignávamos, tamborilando dedos, rolando os olhos e distraindo os ouvidos com qualquer som que viesse de fora da janela.

Alheias à nossa falta de respeito, as pupilas cintilavam ao encontrar o objeto da súbita erupção mnemônica. A pele amarelada e áspera se fazia aveludada percorrendo carinhosamente cada minúcia do intrincado crochê enfeitado com miríades de miçangas coloridas.

Cada lembrança ele guardava assim. E a cada invocação, perdia-nos em devaneios acrescentando pontos e firulas.

Com o passar dos anos, os pequenos bibelôs se tornaram irreconhecíveis; e a coleção tão extensa, tão complexa, que ao buscarmos em nossas próprias lembranças não os associávamos mais.

Descuidamos dos sinais: o tatear incerto se fez trôpego, os nomes que se confundiam, as miçangas e crochês trocando de tempo e lugar.

E as pupilas baças... Ah, antes tivéssemos reparado! Mas não, mais preocupados em seguir os ponteiros do relógio do que as filigranas da sua narrativa, deixamos de reparar em como voltavam-se cada vez mais para dentro; e no quanto lhes custava retornar.

Ocupados em adornar nossos próprios bibelôs, nem reparamos quando os crochês e as miçangas desapareceram.

Então foram-se os bibelôs, e ele calou.

Hoje os olhos baços contemplam a cristaleira vazia, e é só.

Não nos dirige palavra nem olhar: nos ignora.

Partiu com seus bibelôs enfeitados para além do reconhecimento.


(foto: "Old Hands", por Alex Algo)

PRA LER E PENSAR


Abertura oficial das Olimpíadas de Inverno de Sochi, "as piores de todos os tempos" já antes mesmo de começar. Até aí tudo bem: as de Londres em 2012 já levaram o caneco, juntamente com Pequim (2008) e Atenas (2004). É que falar mal das coisas parece dar um IBOPE danado hoje em dia.

Mas a crítica à Sochi 2014 vem aditivada desde que a Rússia, ao publicar uma lei visando proteger suas crianças da sexualização precoce promovida pela (falta) de cultura disseminada pela mídia de massas, foi declarada inimiga mundial dos gays.

Intrigado com o fato, o repórter independente norte-americano Brian M. Heiss fez o que NINGUÉM na grande mídia, ou do público em geral, se deu ao trabalho de fazer: arregaçou as mangas e tratou de investigar. (Aqui a íntegra do documento.)

Ao invés de uma matéria, acabou escrevendo uma tese, que pode ser lida em sua íntegra (em inglês) aqui. São 73 páginas de bom jornalismo, aquele que mostra os fatos e estabelece comparações sem induzir nossas conclusões; mais 56 páginas de documentos legais - entre eles a Lei Federal "A Proteção das Crianças de Informação Danosa à sua Saúde e Desenvolvimento" aprovada em 24 de dezembro de 2010 sem que nenhum veículo da mídia internacional sequer fizesse menção - o furor só emergiu depois da Rússia punir algumas empresas dando a entender que a lei era mesmo pra valer.

Eu li a matéria e recomendo a todos que têm um cérebro e estão habituados a usar. Leituras como essa servem de antídoto para a doutrinação maçiça a que somos submetidos 24 horas por dia; revelando o princípio sórdido do lucro pelo lucro como imperativo universal de uma sociedade que não poderia se importar menos com suas próprias crianças, seu próprio futuro.

Resumidamente, a análise de Heiss indica que:

A histeria focou na expressão "proteger as crianças da propaganda de relações sexuais não tradicionais". Como se só as relações homossexuais fossem "relações sexuais não tradicionais".

De fato, se alguém neste mar de desinformação se desse ao trabalho de investigar antes de abrir a boca, iria descobrir que na Rússia o direito PESSOAL à opção sexual é garantido POR LEI desde 1993 - ela segue sendo CRIME em 12 estados norte-americanos.

Tampouco lá a opção sexual serve de base para a demissão - o mesmo não se pode dizer dos bastiões da democracia. Aliás, estatisticamente, os gays sofrem mais agressões e crimes de ódio nos Estados Unidos da América do que na Rússia.

Se é assim, então porque todo esse furor?

Simplesmente porque o alvo dessa lei são as grandes corporações, com seus produtos e propaganda que imbecilizam e sexualizam precocemente nossas crianças. É uma lei que foca no SHOW BUSINESS: 

"Esta lei, falando francamente, é mais endereçada ao show business. A lei se dirige à mídia de massa e ao show business. Esta é uma das leis no complexo de medidas que estão sendo tomadas no campo do show business.", afirma o deputado Alexei Mitrofanov.

Por quê?

Porque na Rússia o entretenimento é um mercado de 178 BILHÕES de dólares. São 1,2 bilhões de dólares só na venda de ingressos para o cinema, e mais de 10 bilhões de dólares em publicidade (dados de 2012). E a distribuição de videogames segue um ritmo de crescimento médio de 11% ao ano, devendo chegar a 1,8 bilhões em 2017.

Se o "show" da Beyoncé no Grammy tivesse acontecido na Rússia, a gravadora e os promotores do evento pagariam multas pesadas e a cantora, além da multa, ainda prestaria serviços comunitários por duas semanas.

E isso não interessa às grandes corporações, que "coincidentemente" controlam todas as gigantescas redes internacionais de notícias. Ainda mais num momento de estagnação, quando não de retração, de seus mercados tradicionais. Os únicos mercados em expansão somos nós, os emergentes.

O que concluo de tudo isso?

Precisamos acordar para o fato de que nosso bem-estar não é do interesse das grandes corporações. Que qualquer iniciativa para proteger princípios, ética e valores locais, ou que simplesmente interfira nos interesses econômicos das grandes corporações; será combatida com ferrenhas campanhas difamatórias de anti-propaganda, insuflando "manifestações"  que nada mais são do que eventos midiáticos orquestrados para gerar imagens emocionalmente impactantes para bloquear de antemão qualquer tentativa de argumentação racional. Quem assistiu ao filme sobre a Hannah Arendt sabe exatamente do que eu estou falando.

A essa altura do campeonato é imperativo compreender que a máquina do sistema de produção para as massas é um organismo que cresceu tanto em tamanho e complexidade que não comporta sequer uma mínima adaptação às especificidades de povos e culturas. Sua estratégia de sobrevivência é o gigantismo do rolo compressor que equaliza a todos dentro de uma margem pré-definida de gostos e valores.

Dentro desse sistema de produção em larga escala, pluralidade é sinônimo de prejuízo: mais que diversificar a linha de produção adequando-a a públicos diversificados, o sistema se dedica à erradicação da diversidade, moldando o público ao padrão pré-determinado de seus produtos.

2 de fev de 2014

A VIDA NÃO É PARA SER LEVADA A SÉRIO


BOM DIA!!!

É um processo engraçado esse: nossa estréia na escola (seja no primeiro ano ou no pré) é sempre brindada com tintas, cantinhas, lápis, crayons... e dá-lhe pintar no papel, na cartolina, na lixa, no vidro, nas paredes até. Em casa, nossos se mostram orgulhosos e exibem nossas "obras" para familiares, amigos; e, mais recentemente, para o mundo todo pelas redes sociais.

Aí, a medida que a gente vai crescendo, as tintas vão sumindo da classe, até que toda a cor se resuma ao azul das canetas Bic. Se pegos desenhando em sala de aula somos corrigidos, reprimidos, as vezes até ridicularizados. Em casa, se passamos mais tempo ocupados com as tintas ou a música do que com as tarefas da escola, logo vem a reprimenda:

- Você não está levando nada a sério.

E segue a pressão por se buscar uma "profissão", como se arte fosse uma (des)ocupação inconsequente e infantil. E dá-lhe "aconselhamento de carreira" ("career coaching", nestes tempos chiques e modernos): "você precisa pensar no futuro", "não seja imprevidente".

"O trabalho dignifica o homem". Toda a arte é vista como ócio, como vagabundagem de quem não quer crescer e assumir responsabilidades nesta vida.

Em oposição, artista é aquele ser drogado, preguiçoso e estouvado que passa os dias dormindo e as noites se divertindo por aí.

E aos milhões, as cigarras despem-se das asas para virar formigas: o futuro Picasso vira arquiteto. O novo Mozart, engenheiro; e o jovem Hemingway, advogado.

Terno escuro, camisa branca, gravata, sapato engraxado (se for mulher, terninho e saia, camisa branca, meias de nylon e sapatos de salto alto); e lá nos vamos deslizando pelas esteiras de um sistema de valores e obrigações que vão se avolumando e ao mesmo tempo condicionando, tolhendo e forjando nossos caráteres para melhor nos encaixar no estereótipo mais apropriado à função.

Com sorte, alguns encontrarão satisfação na carreira escolhida, e olhando para trás sentir-se-ão felizes e realizados.

Com um pouquinho mais de sorte, chegarão mesmo a ser "bem sucedidos" (status via de regra aferido mais pelo crescimento do patrimônio do que pela qualidade do trabalho realizado) - o que não implica necessariamente em senso de realização e felicidade pessoal.

Boa parte vai ficar pelo caminho batida por um câncer, uma doença cardíaca, hipertensão, diabetes ou algum acidente ou morte violenta.

Muitos sobreviverão às doenças, perigos e aflições para chegar ao "futuro" - o almejado estado de graça livre do stress dos prazos, dos horários, da ansiedade de se estar sempre correndo atrás da máquina.

A imensa maioria chegará cansada, batida, vencida, derrotada; sem energia para mais do que vestir o pijama listrado e assistir a vida passar pela janela viciante da televisão.

Melhor seria terem levado a vida menos a sério, sido menos "previdentes", e vivido um pouco mais. Com menos distração e mais satisfação.