29 de jun de 2013

A SÍNDROME DE CASSANDRA


Devota servidora de Apolo, Cassandra recebeu o dom da previsão ainda criança quando uma serpente lambeu seu ouvido enquanto dormia no templo de Apolo. Eventualmente a menina cresceu tornando-se uma jovem de exuberante beleza e tão dedicada ao deus que Apolo se apaixonou e lhe concedeu o dom da profecia. Mas quando Cassandra o rejeitou, Apolo lançou a maldição de que ninguém jamais viria a acreditar nas profecias ou previsões da jovem.

Dali em diante, Cassandra foi tida como louca e suas inúmeras previsões de catástrofes e desgraças foram desacreditadas, ignoradas e até ridicularizadas. Tróia só foi destruída porque Príamo ignorou suas desesperadas súplicas para que destruísse o cavalo engendrado por Ulisses.

É desse capítulo da mitologia grega que deriva o termo "Síndrome" ou "Metáfora de Cassandra", expressão cunhada pelo filósofo francês Gaston Bachelard em 1949 numca crítica racional à crença popular de que eventos podem ser previstos ou conhecidos de antemão.

Embora Bachelart e vários outros filósofos e estudiosos tenham produzido ampla argumentação em sentido contrário à prática; a verdade é que ela é largamente empregada como "verdade científica" por governos e instituições privadas. O sistema financeiro, espinha dorsal da economia mundial atualmente, recorre à "futurologia" de fórmulas matemáticas e pesquisas de opinião para divisar suas estratégias de lucro.

Se olharmos de perto, o marketing nada mais é do que a prática da "futurologia" com base em procedimentos científicos comprovados.

Isso gera uma dissociação estrutural entre a realidade objetiva e o cenário de realidade que o capital busca estabelecer para ampliar ou manter mercados instrumentado por uma pseudo-ciência especializada em elaborar teorias baseadas em dados subjetivos apurados objetivamente.

Exercícios especulativos como os do Relatório de Cassandra servem de base para que marketeiros de todo o mundo elaborem estratégias de comunicação para marcas e instituições (inclusive as governamentais).

E no fogo cruzado das campanhas publicitárias desenvolvidas a partir de especulações baseadas numa amostra limitada cultural e geograficamente do universo (as pesquisas iniciais limitam-se ao território norte-americano, sendo posteriormente repetidas em outros pontos geográficos), a perspectiva histórico-cultural que molda a consciência cívica, a ética e, porque não dizer, a moral das novas gerações e seu exercício vem sendo crescentemente substituída pelo consumo como forma última de manifestação do ser no mundo.

Um exemplo claro de como operam esses mecanismos é visível no seguinte documento elaborado pelos "experts" do Grupo de Inteligência, uma divisão da Creative Artists Agency (CAA); empresa privada de pesquisa com foco na juventude e dedicada a identificar emergentes movimentos de cultura popular e traduzi-los em conhecimento relevante para empresas, marcas e instituições. Há mais de 15 anos o Grupo de Inteligência publica trimestralmente o Cassandra Report, o principal estudo cultural em curso sobre jovens consumidores e tendências culturais:


Para publicação imediata,
22 de Maio de 2013


Grupo de Inteligência: Cassandra Report Retrata as Crianças Independente e Rebeldes com Causa da Geração Z

Los Angeles, CA - Conforme o novo relatório Cassandra que pesquisou crianças de 7 a 13 anos e seus pais, a Geração Z pode ser jovem, mas seu pragmatismo e independência a faz a geração mais desafiadora para os marketeiros. Tendo crescido constantemente conectados, os membros da Geração Z são práticos, motivados, curiosos e auto-suficientes, em grande parte devido à tecnologia. Como os primeiros verdadeiros "nativos digitais", eles sentem-se poderosos por seu acesso à informação e buscam influenciar os produtos e conteúdos que consomem.

"As crianças da Geração Z têm conversas online sobre marcas muito antes das companhias sequer cogitarem-nos como alvos, tornando crítico colocar-se à frente entendendo suas vontades e necessidades", disse Jamie Gutfreund, Chefe de Estratégia do Grupo de Inteligência. "Aqueles que estão assombrados pelos irmãos mais velhos da Geração Y acharão esta geração de pragmatismo rebelde ainda mais potencialmente elusiva, pois eles exigirão relaçãos ainda mais íntimas e honestas com as marcas, artistas e instituições que seguem."

Baseado no Relatório, que inclui 800 entrevistas online com crianças de 7 a 13 anos e seus parentes de todo o país, o Grupo de Inteligência lançou 10 dicas de marketing para a Geração Z:

1 - Toque seu espírito empreendedor: os Z's têm arranque automático, estão ansiosos para causar um impacto, uma mudança e deixar um nome para si. Marcas podem ser um recurso para percepções e investimentos que lancem esses jovens num caminho inovador pioneiro.

2 - Ouça e responda a eles: os Z's são multitasking, vários pensamentos simultaneos os mantêmconectados a várias correntes de conteúdo ao mesmo tempo - e eles esperam que as marcas sigam o ritmo de sua conversa fogo-rápido, consumo de conteúdo e perguntas e respostas. Marketeiros precisam abraçar e incorporar a virada em tempo real que os Z's almejam.

3 - Convide-os para em seu processo de decisão: o ritmo em tempo real da interação online levou os Z's a esperar serem ouvidos pelas marcas, seja quando reclamam, perguntam, elogiam ou sugerem alguma coisa. Essa geração quer sentir que seus "inputs" têm impacto, e os Z's amam ter suas ideias consideradas e realizadas.

4 - Deixe-os tentar antes de comprar: os Z's são hiper-pesquisadores e caçadores de barganhas, e esperam poder testar nossos produtos antes de se comprometerem com qualquer coisa. Marcas deviam prover a esses experientes jovens consumidores oportunidades de testar, brincar e vivenciar pré-compras tanto virtualmente (por realidade aumentada) como fisicamente (por períodos de teste e ofertas de amostras).

5 - Certifique-se de estar inovando e evoluindo digitalmente: os Z's vêem pouca distinção entre os mundos físico e digital. Eles buscam similar engajamento em ambos. Marketeiros deveriam começar a divisar formas de integrar mais profundamente suas comunicações físicas e digitais, criando produtos, conteúdo e jogos que exibam elementos tangíveis e virtuais trabalhando juntos e bem.

6 - Encoraje-os a serem criativos com seu produto: os Z's estão sempre em busca de novas oportunidades para exibir suas mais inventivas, belas e brilhantes criações. Marcas deveriam fornecer plataformas nas quais eles possam compartilhar seus projetos, ter ideias e inspiração e interagir com jovens com o mesmo sentimento, e proeminentemente exibir seus melhores trabalhos para lhes dar um momento sob os holofotes.

8 - Inspire-os a mudar o mundo: a Geração Z considera que é dado e uma necessidade reciclar, conservar e fazer escolhas verdes, e está participando alguma forma de serviço comunitário através da escola, família ou igreja em números disproporcionais. Marcas podem ser grandes fontes de informação e motivação para que esses jovens melhores suas escolas, comunidades e o mundo.

9 - Construa logo um relacionamento: como confiança e transparência são marcadores sociais de grande importância para a Geraçao Z, marketeiros deveriam envolvê-los em seu nível e oferecer experiências que eles possam apreciar em sua idade atual - mesmo se o que estão vendendo não pareça iminentemente aplicável a crianças. Ganhar sua confiança agora terá poder aglutinados quando esses jovens indivíduos ingressarem na idade adulta.

10 - Mostre o lado luminoso: a Geraçao Z pode ter nascido realista, mas eles ainda desejam e respondem a mensagens de esperança e otimismo. Marcas podem realçar as perspectivas dos Z's mostrando os lados mais iluminados da vida, encorajando-os a encontrar e compartilhar esses momentos luminosos por si mesmos. Mensagens de marketing podem lembrá-los que em um mundo às vezes assustador eles ainda podem encontrar oportunidades e pessoas positivas.


(Foto: estátua de Cassandra no Parque do Louvre, em Paris, em 2012, por Paula Figueiredo)

23 de jun de 2013

CARLA TOLEDO DAUDEN, (MAIS) UMA BRASILEIRA


Carla Toledo Dauden é uma jovem paulista que mudou com a família para Florianópolis aos 12 anos buscando levar uma vida mais pacata e humana depois que seu pai somou-se à infindável lista de vítimas da violência brutal na maior cidade da América do Sul. Como queria ser cineasta e a família podia ajudar, mudou-se para a Califórnia, onde estudou cinema na California State University, em Long Beach; destacando-se como aluna e recebendo vários prêmios. Sim, a Carla não tem só a "sorte" de ter publicado um vídeo que falava exatamente o que todos nós tínhamos entalado na garganta (para refrescar a memória, leia aqui um post do Juca Kfouri de 5 de outubro de 2010 sobre entrevista do presidente do Internacional, Vitorio Piffero, a Juremir Machado da Silva, do Correio do Povo: http://blogdojuca.uol.com.br/2011/10/o-cartel-de-empreiteiras-da-fifa/); trata-se de um vídeo bem produzido, com uma excelente fotografia e narrado numa linguagem simples e direta.

Meu único senão é que o vídeo passou praticamente batido no lobby das empreiteiras amigas da FIFA que vão seguir explorando estádios pelo Brasil 18 anos depois da copa ter passado. Porque, nas palavras do próprio Juca Kfouri:

A Copa do Mundo precisa dar lucro a um grupo de parceiros.

E ele disse mais, lá atrás, em 2010, quando essa massa nas ruas poderia ter mudado alguma coisa:

Na África, já se cogita derrubar alguns dos estádios construídos para a Copa de 2010.
No Brasil, só cartolas, alguns políticos e empreiteiras ganharão com a Copa do Mundo.
O Inter e o Grêmio têm tudo para sair como perdedores.
Serão perdedores felizes.
Farão papel de modernos.
Moderno é pagar aluguel para morar na própria casa.
É o neoliberalismo da CBF e da Fifa
Um neoliberalismo antigo, o dos negócios bons para alguns e ruins para muitos.
(grifos meus)

Tendo já ultrapassado os 2 milhões de hits no YouTube, espero que o vídeo ajude a impulsionar a carreira dessa garota que gostaria que voltasse logo ao Brasil para juntar sua força e talento às dezenas de milhares de novos roteiristas, diretores, técnicos e atores que despejamos nas ruas todo o final de semestre para acabarem vendendo calças ou trabalhando em comerciais de televisão; porque a produção cinematográfica cujos projetos conseguem financiamentos e incentivos oficiais no Brasil é um clubinho fechado no qual as verbas são divididas entre os mesmos de sempre.

Talvez seu talento e senso de oportunidade, ajude a dar visibilidade à luta anônima e diária dessas dezenas de milhares de jovens que só querem poder sobreviver da profissão que escolheram livres do meretrício de trabalhar para as grandes redes de televisão.

Essa é a minha sugestão a você, Carla: converse com seus colegas de profissão aqui e faça outro vídeo denunciando a tristeza que é ter que fazer cinema do próprio bolso num país que investe bilhões em novelas patéticas e propaganda.

Confesso, Carla, que logo que vi o vídeo, formei uma ideia equivocada a seu respeito. Mas depois de ler várias entrevistas, fui entendendo melhor quem é você, o que pensa, e imagino fazer uma ideia do que quer.

Minha opinião começou a mudar quando perguntada por Ruth Aquino da Revista Época sobre uma opinião acerca dos movimentos, você respondeu lucidamente:

Como eu não tenho envolvimento direto com as manifestações, acho até irresponsável eu dar a minha opinião. Tento evitar bandeiras. Quando fiz o vídeo, bem antes da onda de protestos, queria só fazer minha parte e lutar para que nossas vozes fossem ouvidas. Era só esse meu papel no jogo. Mostrar que Brasil não é só futebol e que há problemas. Queria fazer pressão para que mudanças ocorram. Muitos dos manifestantes me parecem perdidos. E agora você não sabe mais quem está a favor de quê. Tem gente usando o meu vídeo para argumentar que o governo tem de cair. Botando palavras na minha boca. Tem gente falando que trabalho para a CIA e os Estados Unidos me pagaram para fazer esse vídeo!!! Não quero promover nenhum boicote à Copa. Estão postando coisas muito extremistas no meu Facebook. O que eu acho mesmo é que o povo tem que subir ao governo e não que o governo precisa cair. A paz tem que ser mantida a todo custo. Espero que todos se conscientizem disso e tenham bom senso. Quem gosta do Brasil não quer uma guerra civil.

(Grifos meus)

E tem a carta que você divulgou.

Acredito concordarmos que se tivesse sido lida por pelo menos metade das pessoas que andam distribuindo o vídeo, muita bagunça e violência poderiam ter sido evitadas.

Tomo a liberdade de compartilhar aqui, para que pelo menos as poucas pessoas que leem o meu blog a entendam melhor:

Oi gente!

Estou acompanhando com um misto de surpresa e temor o que vem acontecendo por conta do vídeo que postei no YouTube. Além de ser muito grata a todos aqueles que compartilharam e que têm contribuído com o debate construtivo, gostaria de pontuar algumas coisas importantes. Leiam isso como uma tentativa de me posicionar diante de críticas e, sobretudo, diante do uso do meu vídeo por parte de grupos que, definitivamente, não me representam.

– Repudio, veementemente, qualquer discurso que coloque em risco o Estado Democrático de Direito;

– Não sou favorável ao impeachment de ninguém. Não se utilize de meu vídeo defender essa ideia;

– Não faço parte nem simpatizo com nenhum partido político ou movimento social, apesar de não ser apolítica e de ter bastante clareza sobre minhas convicções ideológicas;

– Minha iniciativa não tem ligação alguma com os protestos contra o aumento da tarifa, embora eu seja totalmente solidária à causa, como a todas as outras que, de alguma maneira, e através dos movimentos sociais, tentam reverter as históricas injustiças sociais e a desigualdade em nosso País;

– A publicação do vídeo apenas coincidiu com os protestos. Confiram a data da postagem;

– Como explico no início da peça, uso o inglês apenas porque meu objetivo primeiro era falar com amigos e colegas americanos e do mundo, com a intenção de mostrar a realidade do nosso país e trazer atenção internacional ao tema. Consequentemente, essa atenção gera uma pressão maior para que mudanças ocorram.

– Por último, e principalmente, não tenho as respostas para tudo o que está acontecendo, não sou política ou ativista, apenas quis manifestar meus pensamentos. Acreditem, felizmente, nem tudo nesse mundo vem a partir de interesses financeiros ou políticos. Muito mais preparados para responder a essas perguntas estão as diversas organizações e movimentos sociais legítimos que estão lutando há bastante tempo, e diariamente, para que a Copa e as Olimpíadas não passem por cima dos direitos dos brasileiros.

Agradeço enormemente se puderem ajudar a espalhar essa mensagem e peço que não usem vídeo para causas que não condizem com as ideias acima.

Carla Toledo Dauden 

22 de jun de 2013

AFINAL, QUE QUE É ESSE TAL DE "ANONYMOUS"?


Ainda busco uma explicação para os excessos, e não engulo o discurso oportunisticamente paternalista de que os vândalos são garotos revoltados com a falta de liberdade, até porquê tem muito menino e menina de classe média instigando a baderna e quebrando vidraça por aí.

Quanto mais observo, mais me parece que a frase do Samuel Johnson sumariza o que se vê por aí, particularmente quanto à larga apropriação indébita tanto do nome como do símbolo do Anonymous pelos mais diversos matizes ideológicos.

Um pouco de história faz-se necessário para contextualizar essa bagunça toda:

O Anonymous surgiu a partir de um grupo de amigos virtuais, em sua maioria usuários do forum /b/ no 4Chan, que a certa altura, indignados com a proliferação de material de pornografia infantil partiu para a ação, seguindo e expondo a identidade de pervertidos na internet.

O próximo alvo foi a cientologia, depois que o culto resolveu processar o Youtube pelos direitos autorais de um vídeo com Tom Cruise vazado pelo canal. Revoltada com a censura, a rapaziada deflagrou o "Projeto Chanology" que consistia em ataques de negação de serviço e trotes por telefone às sedes do culto espalhadas pelo mundo a fora. Quando o FBI começou a caçar e intimidar membros do grupo, numa declaração de guerra aberta, o Anonymous postou no Youtube o famoso vídeo "Mensagem para a Cientologia" (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Message_to_Scientology.ogv), e logo em seguida, o vídeo "Call to Action" foi publicado também no YouTube, chamando usuários do site para manifestações em frente às sedes da cientologia pelo mundo a fora. Sabendo que o culto empreenderia uma violenta campanha de retaliação, acharam prudente aconselhar às pessoas dispostas a comparecer a essas manifestações que usassem máscaras para proteger suas identidades.

Como no 4chan todos os usuários postam como "Anonymous", a escolha do nome foi inevitável.

Isso foi bem antes de virar "legião", tanto que o refrão era:

Nós [Anonymous] somos apenas um grupo de pessoas na internet que precisa — de um tipo de saída para fazermos o que quisermos, que não seríamos capazes de fazer numa sociedade normal. ... Essa é mais ou menos a ideia. Faça como quiser. ... Há uma frase comum: 'faremos pelo lulz*. (*plural de "lol", que significa "laugh out loud", ou rindo às gargalhadas).

A adoção da máscara de Guy Fawkes que atualmente caracteriza o movimento veio em decorrência de um processo de crescente identificação do grupo com o personagem dos quadrinhos cult (posteriormente vertidos para a telona), pela agregação de mais e mais adeptos com crenças, pleitos e ideologias próprias expandindo não só seus objetivos mas sua área de atuação.

É só neste segundo estágio que o aforismo nós somos Anonymous. Nós somos Legião. Nós não perdoamos. Nós não esquecemos. Esperem por nós foi cunhado.

Para dar uma ideia da dimensão atual do Anonymous, em 2011 ele esteve envolvido diretamente na Primavera Árabe (Egito e Tunísia), na Malásia, na Síria, no Occupy Wall Street (e todos os eventos do gênero), na Operação DarkNet (que operou no submundo da internet fechando 40 sites de pornografia infantil, revelando de quebra as identidades de mais de 1500 pedófilos ao FBI e Interpol), na Nigéria, nos protestos contra a SOPA (Stop Online Piracy Act), na Polônia, contra o ACTA (Anti-Counterfeiting Trade Agreement); e agora chega ao Brasil no rastro do movimento pelos 20 centavos.

A única bandeira que se pode atribuir ao Anonymous é o princípio anarquista do "ninguém delega a palavra a ninguém". Essa é uma via de mão dupla: assim como o Anonymous não representa nenhum grupo específico, nenhum grupo, crença ou partido pode se alçar ao direito de se proclamar legítimo representante do Anonymous.

Mas há um porém, particularmente no que tange a essa balbúrdia que tomou de assalto a sociedade brasileira: não é porque não se alinha a este ou aquele partido que o Anonymous carece de conteúdo político.

Mas o que busca o Anonymous, afinal?

O Anonymous nada mais busca do que a aplicação prática do que está escrito na Declaração de Independência dos Estados Unidos da América:

(...) todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade. Que a fim de assegurar esses direitos, governos são instituídos entre os homens, derivando seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo(...)

Simples assim. Mas as implicações são extensas.

1 - a declaração refere-se a "homens dotados pelo Criador" - isso exclui empresas e corporações, pois estes são entes artificiais criados com o objetivo precípuo do lucro mesmo que em detrimento do bem comum; atribuir-se a essas entidades o poder de definir políticas públicas (i.e.: influenciar a legislação criando penas de privação de liberdade em qualquer nível) é uma contratitio in terminis. Ou, curto e grosso: o que pertence ao âmbito comércio não tem legitimidade para legislar em causa civil.

2 - Vida, Liberdade e Busca da Felicidade são DIREITOS INALIENÁVEIS (não podem ser transferidos, delegados, removidos, divididos, alterados, manipulados e por aí a fora); ou seja, qualquer governo, empresa ou instituição que atente contra esses direitos inerentes à condição de ser humano é, por extensão, inimigo da humanidade.

3 - governos são instituídos pelos homens e para os homens; não para empresas ou corporações.

4 - qualquer governo que se torne destrutivo dos únicos fins a que deve se propor, que são a promoção da Vida, da Liberdade e da Busca da Felicidade dos homens a quem representa deve ser alterado, abolido ou destituído.

Curto e grosso, o Anonymous é a resposta da nova geração à massificação imposta pelo poderio econômico manipulador da política e da opinião pública que reduz indivíduos à condição de unidades produtoras-consumidoras de bens e ideias alienantes dos valores básicos inerentes à condição humana que são a vida, a liberdade e a busca da felicidade.

Qualquer "anônimo" que levantar a voz em nome de interesses outros que a Vida, a Liberdade e a Busca da Felicidade, não é um Anonymous.

Se pracitar atos extremos de violência não é um Anonymous, pois está atentando contra a Vida.

Se levantar a voz contra qualquer bandeira, não é um Anonymous, pois é contrário à Liberdade.

Se seu discurso é o do ódio, da discriminação, seu discurso é contrário à Busca da Felicidade.

Ele é, na melhor das hipóteses, só mais um anônimo confuso sobre de onde veio e para onde vai.

Por isso está hoje nas ruas por mais baderna e menos bandeiras.


19 de jun de 2013

A PRIMEIRA GALINHA QUE CANTA É A QUE BOTA O OVO


No meio da aula de ciências, o Pedrinho solta um pum.

Temendo ser alvo do bullying (pra usar um termo da hora), antes mesmo que o fedor se espalhasse, Pedrinho levanta, aponta o dedo e grita:

- FOI A MAGALI!!!

- O quê?!! - grita o resto da classe.

- O pum, vocês não estão sentindo??? - exclama Pedrinho ainda com o dedo em riste - A Magali deu um pum!

A classe explode em gargalhadas:

- Peidona! Peidona! Peidona!

Deu. Pronto. Por mais que falasse, que chorasse, que gritasse, que arrancasse os cabelos; nem trazer laudos médicos atestando que não comeu nem feijão, nem couve, nem repolho não só naquele dia, mas na semana inteira; livrou Magali da pecha de peidona.

Só foi pior: quanto mais Magali se esforçava para provar que não era uma peidona, mais gente se convencia que ela era.

- Cai fora, peidona! - desdenharam as meninas na hora do lanche.

- Aqui, peidona não senta! - provocaram os amigos entre os quais Magali sentava há meses na sala de aula.

- Não brinco com peidona. - argumentou sua melhor amiga dando as costas.

E daquele dia em diante, Magali ficou sozinha.

Mas isso não foi o pior: todas as outras crianças puderam dar puns à vontade; porque mesmo que o pum viesse lá do outro lado da sala, só podia ser culpa da Magali, "a peidona".

Num filme da Disney, Pedrinho um tempo depois estaria gritando por socorro porque seu fiel cãozinho Rex caíra num rio de águas perigosas. Do outro lado desse rio, Magali que estivera sozinha na floresta chorando suas mágoas, assistiria à cena, pularia na água arriscando a própria vida, salvaria Rex e no dia seguinte, em frente a toda a turma, Pedrinho confessaria ser ele o autor do famigerado pum, Magali viraria heroína e todos seriam felizes para sempre.

Mas como a vida está longe de ser um filme da Disney, Magali seguiu sendo alvo de todo o tipo de piadinhas e brincadeiras de mau gosto.

Como tudo que aprenderam com isso foi que todo mundo pode dar puns à vontade, desde que tenha uma Magali para culpar; os coleguinhas dela cresceram felizes e despreocupados: cada vez que alguma coisa parecia errada tudo que precisavam era que outro Pedrinho botasse a culpa em outra Magali.

Eventualmente cresceram, "ampliaram horizontes", como se diz; e cada um seguiu a sua vida mais ou menos independente dos demais. De acordo com seus talentos, capacidades e do quanto os pais puderam investir na sua educação, os coleguinhas da Magali se deram mais ou menos bem na vida.

O Pedrinho, por exemplo, virou político e foi parar em Brasília, onde segue dando puns e apontando Magalis. E tem até assessores especializados em descobrir qual melhor Magali para acusar, dependendo do fedor do pum. E como é simpático, fotografa bem e sempre tem aquele ar sério e honesto, todo mundo segue acreditando nele.

"E a Magali?", pergunta você.

Como não tinha amigos, a Magali se refugiou nos livros e nos estudos. Formou-se em Direito, fez mestrado, doutorado, pós-doutorado; escreveu dezenas de teses e outros tantos livros desses que quase ninguém lê. Para além disso, é voluntária em várias ONGs dedicando seu tempo livre a melhorar a vida das pessoas.

Outro dia ainda, por ocasião de um grande escândalo de desvio de verbas em que Pedrinho estaria implicado, os dois foram convidados a debater na tevê.

Foi quando ao vivo, e em rede nacional, logo depois das apresentações, o Pedrinho fez aquela cara séria que faz os fotógrafos dispararem seus flashes:

- Magali... Magali... Fomos colegas de escola, não? - e sem dar tempo para que Magali dissesse sim ou não, emendou - A peidona! Agora eu lembrei! Era assim que a gente chamava você na escola.

E dali em diante, ninguém mais quis saber do escândalo: todo mundo só falava dos puns da Magali.

11 de jun de 2013

URBANIDADE


10 de jun de 2013

OS MENINOS-FOCA


No meu sonho tem uma praia, onde as crianças vão brincar.

São crianças de todo o mundo, porque crianças são todas iguais.

A praia é muito bonita, cheia de árvores e pedras enormes.

Lá nunca chove, e também nunca faz frio.

A areia é branca e fininha, macia de se pisar.

Com ela se fazem castelos de verdade (com reis, rainhas e tudo mais), que o mar nunca vem derrubar.

A água é rasa e quentinha, e o mar é calmo como uma lagoa, lisinho que nem um espelho refletindo as nuvens no céu.

Onde a praia acaba tem umas pedras pretas bem lisas, que vão da areia até o mar, e é bem neste cantinho que as crianças mais gostam de ficar.

Isto porque todo o dia, numa hora que só as crianças sabem, a água ficha cheia de espuma, até parece sabão, e enche o ar de bolhas coloridas que não estouram se a gente pegar na mão.

Então eles aparecem: olhos grandes, de um marrom bem claro, transparentes como a água, e que brilham como o sol.

Todos têm a pele lisinha, e cada um é de uma cor.

Eles falam coisas bonitas, e inteligentes também: dizem que o mundo é uma árvore muito velha, que nunca pára de crescer.

Que os adultos são crianças crescidas, que se esqueceram de sonhar.

Dizem que o amor de verdade não cabe no coração: se espalha pelo mundo todo e faz as pessoas ficarem mágicas.

Os bichos, eles dizem, só são felizes nos seus lugares: um passarinho fica triste quando está preso numa gaiola, e os cãezinhos precisam de espaço para poder correr e brincar; e que quem ama um bichinho deixa ele solto e feliz, porque é assim que se conquista o coração das pessoas de dos animais.

Dizem que os adultos já derrubaram muitas florestas, e deixaram muitos bichos sem lar.

Encheram o ar de fumaça e os rios de poluição.

Acabaram com muitos peixes, e passarinhos também; que matam bichinhos inocentes só pra fazer roupas e sapatos e nem é porque precisem: é só para mostrar.

E que compram armas muito caras e viajam longe para atirar nos bichos selvagens só pelo prazer de matar.

Contam que há muito tempo eles vão naquela praia.

Que há muito tempo eles falam com as crianças.

Mas que depois que as crianças crescem, não querem mais escutar.


No meu sonho tem uma praia, onde as crianças vão brincar.

Mesmo que acabem as focas, as ondas limpas do mar.

Mesmo que o céu se esconda por trás da poluição, que não exista mais uma árvore, uma grama onde pisar...

No meu sonho ainda terá uma praia, onde as crianças irão brincar.

Para ver os meninos-foca e ouvir o que eles têm para contar.

(revisão de texto publicado originalmente no Diário Catarinense, em 25 de julho de 1987. Ilustração: Kiko Novaes)

9 de jun de 2013

VERDADE, BONDADE E NECESSIDADE


Pessoas inteligentes falam sobre idéias; pessoas comuns falam sobre coisas; pessoas mesquinhas falam sobre pessoas.

Vez por outra essa frase de Sócrates pipoca nas redes sociais, seguida de algum comentário ácido sobre alguma celebridade pra provar que repetição é decoreba: não leva ao entendimento.

Sócrates nasceu em berço humilde nas planícies do monte Licabeto, próximo a Atenas. Seu pai, Sophroniscus, foi um escultor especializado em entalhar colunas e sua mãe uma parteira. Cresceu mais atrapalhando do que ajudando o pai na oficina, e era motivo de zombaria dos outros aprendizes pela absoluta falta de habilidade manual.

Se não fosse o vaticínio do Oráculo de Delfos (que previu para o pequeno Sócrates um destino de grande educador) e a persistência de sua mãe, ele provavelmente teria entrado para a história como o pior escultor ateniense de todos os tempos, e não como uma das mentes mais brilhantes da história da humanidade - o que serve de alerta para muitos pais que ainda hoje insistem em forçar as escolhas profissionais de seus filhos.

Uma de suas primeiras "sacações" (momento elegantemente denominado pela literatura de auto-ajuda como insight) ocorreu ainda na infância, quando foi ajudar sua mãe num parto complicado. Enquanto sua mãe lutava para trazer a criança viva ao mundo, a mente de Sócrates elevava-se a quilômetros de distância: o conhecimento está dentro das pessoas, que são capazes de aprender por si mesmas. Porém, eu posso ajudar no nascimento dese conhecimento.

É por isso que até hoje os ensinamentos de Sócrates são conhecidos como maiêutica, que em grego significa "parteira".

De mais, sabe-se que ele costumava caminhar de pés descalços, não tinha o hábito de tomar banho e quando lhe ocorria uma ideia, parava o que quer que estivesse fazendo e ficava pensando por horas - certa vez foi encontrado de pés descalços na neve, tão envolto em pensamentos que nem reparara no frio.

Também se sabe que serviu no exército ateniense estando envolvido em algumas batalhas, dentre elas, pela importância histórica e por ter sido sua derradeira; destaca-se a Guerra do Peloponeso, para a qual foi enviado na condição de general por sua capacidade de liderança. Ao final da guerra,  preocupado em salvar os poucos soldados vivos de seu batalhão, ele ordenou a retirada mais rápida possível para Atenas, deixando para trás os mortos em batalha - o que contrariou a lei ateniense que obrigava o general a enterrar TODOS os seus soldados mortos, ou morrer tentando.

Por esta ordem, Sócrates foi preso e levado a julgamento.

Isso foi um prato cheio para seus inimigos, em grande parte renomados "mestres" da época que ainda sentiam roer nas entranhas a inveja pelas palavras de Pítia (sacerdotisa do Templo de Apolo), que ainda quando Sócrates era só mais um estudante de filosofia dissera ser ele "o mais sábio de todos os homens"; inveja essa somada ao ciúme por sua popularidade e pela sua tentativa de tornar livre e acessível a qualquer pessoa, independente de classe ou intelecto, a poderosa ferramenta do pensamento crítico: como pode um homem ensinar de graça e pregar que ninguém precisa de professores como eles? (qualquer semelhança com pessoas ou instituições vivas ou mortas NÃO É mera coincidência).

Ao final do julgamento (amplamente documentado por Platão), Sócrates foi  condenado por "não acreditar nos costumes e nos deuses gregos, unir-se a deuses malignos que gostam de destruir as cidades e corromper os jovens com suas ideias"; então tomou cicuta e morreu pobre, pois nunca recebeu um centavo sequer por seus ensinamentos.

Mais que sua morte, no entanto, sua vida convivendo, dialogando e acima de tudo observando as pessoas comuns é que foi sua grande obra.

Foi nesse convívio cotidiano com as pessoas simples que Sócrates desenvolveu o "método socrático", que faz uso de perguntas simples, quase ingênuas, para revelar as contradições em ideias que temos por certas e universais, mas que nada mais são que a repetição automática dos valores e preconceitos da sociedade em que vivemos; e nesse exercício nos dotar de poderosas ferramentas, absolutamente acessíveis a qualquer um para repensar por si mesmo os preconceitos e redefinir esses valores.

Pois bem, a ele é atribuído o "Método das Três Peneiras", um brevíssimo manual para a boa conduta e a felicidade social. Funciona assim:

A vida plena se apoia em três pilares: VERDADE, BONDADE e NECESSIDADE, que devem ser tanto buscados como praticados.

Quando nos dirigimos a alguém, por exemplo, devemos sempre ter em mente esses três pilares, e aplicá-los como filtros (ou peneiras) a tudo quanto vamos comunicar.

1 - Você tem certeza ABSOLUTA que o que está prestes a dizer é verdadeiro?

Se não tem certeza, não fale.

2 - Você gostaria que isso que está prestes a contar fosse dito a SEU respeito?

Se não gostaria, não fale.

3 - Que NECESSIDADE você tem de falar isso para alguém?

Se não tem necessidade, não fale.

Conhece-te a ti mesmo, pregava Sócrates. Se as pessoas se conhecessem melhor, conheceriam melhor às outras e usariam seus esforços e talentos para satisfazer suas NECESSIDADES guiadas pela VERDADE e pela BONDADE.

Mais não é preciso para que todos sejam felizes.

6 de jun de 2013

NÃO AO BOLSA-ESTUPRO


Enquanto nós cronópios fazemos das tripas o coração pra viver com alguma dignidade e sermos tão felizes quanto possível, espalhando amor e alegria ao nosso redor, os arautos da escuridão, talvez por inveja da luz que irradiamos, seguem estendendo tentáculos para nos roubar o sol.

Não é de hoje nem de ontem, pois até a Bíblia faz referência às pessoas que não satisfeitas em serem infelizes querem impor sua miséria ao resto da humanidade. Ultimamente temos assistido fortes iniciativas da bancada evangélica neste sentido. Não digo que religião seja ruim, nem tenho nada contra evangélicos em geral. Nada disso, não me entenda mal.

Não estou falando da maioria das pessoas que é capaz de orar e praticar sua religião com respeito e tolerância pelas demais. Falo de uma minoria que não entende, não assimila, que é incapaz de entender que religião é uma opção pessoal e intransferível. Essas pessoas intolerantes são as mesmas para quem toda religião se traduz em códigos de conduta, em ideias fixas e imutáveis sobre como toda a humanidade pelos cinco continentes deveria viver e se comportar. Para esse tipo de gente, religião é poder. Eles não têm fé: elas professam a fé. São duas coisas bem diferentes.

Quem tem fé de verdade não espalha aos sete ventos nem tenta convencer aos outros que sua verdade é maior: ele sente essa verdade como maior para si, e é o quanto basta: sua própria existência se dá num diálogo constante com Deus que dispensa intermediários. Pessoas assim convivem perfeitamente em sociedade sem tentar impor suas opções de vida aos demais.

Quem tem fé de verdade pratica a tolerância, o perdão e a compaixão, porque essa é a Lei de Deus: "ama a teu próximo como a ti mesmo". Claro que fica difícil praticar isso quando não existe o amor por si mesmo.

O que me interessa se a mulher do 702 fez um aborto? Isso é entre ela e Deus. Não cabe a mim julgar, não cabe a mim proibir: não a conheço, não sei nada dos motivos que a levaram a fazer esse aborto. Só sei de mim, e é só por mim que respondo.

Viva e deixe viver. Cada um que busque Deus do seu jeito. Uma coisa é certa: à força é que ninguém vai encontrar.

De mais a mais, juntando-me à campanha pela manutenção do bom-senso na sociedade brasileira, elaborei uma série de cartazes para quem quiser usar.

Ah, e se você como eu defende o livre-arbítrio, aproveite para assinar a petição aqui: http://www.avaaz.org/po/petition/Diga_NAO_ao_Estatuto_do_Nascituro_PL_4782007/?ffdAVab&pv=97

Agora aos outros cartazes:







OLHA ELE AÍ DE NOVO


Fique ligado: o cavalo de tróia Zbot, também conhecido como ZEUS que no passado já causou o desvio de cerca de 800 milhões de dólares, e um dos malwares mais perigosos e difíceis de detectar voltou a circular no Facebook.

Diferentemente de outros cavalos de tróia, o Zbot não é um programa desenvolvido por um hacker ou grupo de hackers. O Zbot é, na verdade, um kit de construção de malwares que permite a qualquer pessoa com algum conhecimento de programação o desenvolvimento de seu próprio cavalo de tróia.

E é considerado um negócio sério por seu criador, pois é distribuído com um sistema de licenciamento que só permite a cada cópia ser rodada em uma única máquina e regularmente atualizado (a versão sendo comercializada atualmente é a 1.3.4.x). O que o torna o primeiro software comercial de construção de vírus. E aparentemente bem rentável, pois por 3 mil dólares, qualquer um já pode baixar a base do programa e seus "plugins" ou "extensões" de podem chegar a custar mais de 30 mil dólares.

É por isso que não existe um Zbot, mas centenas de variações, talvez milhares circulando por aí, o que torna praticamente impossível sua erradicação, pois para cada atualização dos antivírus, novas versões do Zbot começam a circular.

Sua fonte primária de disseminação são emails, via de regra mimetizando emails de algum site ou instituição confiável dizendo que há problemas com seu login e pedindo que você clique num link. Como grande parte das pessoas não se dá ao trabalho de checar para onde o link aponta, acaba clicando e o trojan se instala em sua máquina antes que tenha tempo de desconfiar.

Eis uma relação das "capacidades" do Zbot até onde se sabe:

  1.  roubar dados inseridos em formulários HTTP
  2.  roubar senhas protegidas no Windows
  3.  roubar dados de certificação digital
  4.  roubar dados de login em FTP (transferência de arquivos) e POP (email)
  5.  roubar ou deletar HTTP e cookies de Flash
  6.  alterar o código-fonte de páginas dos sites visados para acessar dados de usuário
  7.  redirecionar usuários dos sites originais para cópias maliciosas
  8.  capturar telas e código-fonte de sites autênticos visitados pela máquina infectada
  9.  fazer o upload de arquivos com dados sensíveis da máquina infectada
  10. alterar arquivosa locais (%systemroot%\system32\drivers\etc\hosts)
  11. baixar e executar programas arbitrariamente
  12. deletar chaves de registro tornando o computador inutilizável

Uma vez instalado, o Zbot vasculha seu computador coletando todas as senhas (mesmo as protegidas) e fica na tocaia, sendo ativado a cada vez que você acessar alguma das páginas que ele está programado para monitorar. Aí ele pode tanto copiar todos os dados que você digitar, como interceptar a página original inserindo campos ou alterando completamente formulários online, como, por exemplo, acrescentando um campo pedindo sua data de nascimento num formulário de login que originalmente só pedia nome de usuário e senha.

Como se não bastasse, o Zbot é capaz de se comunicar com seu controlador e executar algumas "tarefas" adicionais como fazer o download e upload de arquivos, servir de zumbi em ataques coordenados a sites (como esse que a gente vê todo o dia contra instituições e sites governamentais), reiniciar ou desligar o computador, ou mesmo alterar ou deletar arquivos de sistema tornando impossível o uso do computador sem a total reinstalação do Sistema Operacional - lembra a história dos hackers russos que "sequestravam" computadores pra pedir resgate?

O Zbot é popular no submundo porque foi desenvolvido para roubar dados bancários e qualquer informação pessoal passível de comercialização no mercado negro. Mas o pior mesmo deste cavalo de tróia é que o usuário só descobre DEPOIS que o estrago foi feito, porque o Zbot é especificamente programado para ser invisível aos olhos do usuário comum: a máquina não fica mais lenta, a navegação continua exatamente igual, os programas que você usa abrem todos normalmente, não aparece nada, mas nada esquisito mesmo.

Você só vai ficar sabendo que está infectado quando o saldo de sua conta bancária zerar do dia para a noite, ou aparecer entre os procurados da Interpol por um cambalacho em Singapura sem nunca ter saído de Cachoeirinha.

Como cautela e canja de galinha nunca são demais, seguem algumas dicas para você se proteger tanto quanto possível:

1 - Se você tem uma empresa ou negócio e efetua transações online, acostume-se a dedicar uma única máquina exclusivamente para essas transações e nada mais: nada de navegar na internet ou ler emails naquela máquina. Para navegar e  ler emails, use outra máquina - se não tiver, compre um netbook, um tablet ou mesmo outro pc mais baratinho e crie o hábito de não manter nenhuma informação importante de sua empresa ou negócio na mesma máquina que usa para surfar na internet.

2 - Não custa lembrar: mantenha seu sistema operacional e o antivírus sempre atualizados.

3 - Não abra, mas em hipótese alguma qualquer anexo ou link de pessoas que não conhece e, se conhece, procure se informar antes se a pessoa realmente enviou aquele email - pode até servir de desculpa pra marcar um jantar, happy hour ou até aquele cafezinho que vocês estão se devendo há tempos.

4 - Acostume-se a olhar a barra de informações de seu browser e do software de email que usa conferindo o endereço de internet antes de clicar em cada link.

5 - Procure aprender a visualizar o código-fonte em seu aplicativo de email sempre que desconfiar de uma mensagem: isso é bem mais fácil do que parece e vai evitar muita dor de cabeça, porque só por visualizar o código-fonte você não está exatamente abrindo o email, mas tem acesso ao conteúdo da mensagem e, melhor: no código-fonte você vê para onde verdadeiramente apontam os links nos emails. Para identificar um endereço de internet no código-fonte de uma mensagem, basta procurar pela expressão "a href": o que vier entre as aspas logo depois do sinal de =, é o endereço real para onde o link aponta.

6 - Sabe aquele power point com uma mensagem linda que sua tia mandou com todo o amor e carinho? Seja insenvível: delete sem abrir. Peça desculpas depois.

7 - Procure navegar com mais segurança e não vá clicando em todos os links que seus amigos postam nas redes sociais, principalmente se vierem acompanhados de textos que não parecem ter sido escritos por seus amigos.

8 - Habitue-se a limpar regularmente seu histórico de navegação excluindo todos os cookies e aplicativos instalados (como o active X).

9 - Configure seu browser para não aceitar cookies de terceiros. Se o site que você queria ver não abrir direito por causa disso, azar dele, segurança sua.

10 - Finalmente, vale o ditado: a curiosidade matou o gato. Não se deixe levar pelo sensacionalismo nas redes sociais. Fuja como o diabo da cruz das fotos de gente pelada, celebridades em situações embaraçosas, escândalos, "revelações" sobre ovnis, paranormalidade e qualquer assunto desses que inflamam a nossa curiosidade: 9 entre 10 desses links estão contaminados com vírus que podem ir dos mais chinelos a coisa séria mesmo.

Lembre-se: com a popularização, a internet virou praça pública. Você andaria com a bolsa aberta na Praça XV em plena hora do rush? Então seja cuidadoso aqui.

Existem várias ferramentas que usadas juntamente com um bom antivírus e um sistema operacional atualizado facilitam bastante a vida. Eu costumo usar essas três:

Web Of Trust - WOT (http://www.mywot.com/), por exemplo, é um plugin para navegadores que insere um ícone ao lado dos links indicando sua confiabilidade. As cores vão do vermelho ao verde. O sistema é baseado em avaliações de usuários e da própria equipe da WOT. Tem o plugin da WOT instalado e viu um anel laranja ou vermelho ao lado do link? Não clique. Simples assim.

URL X-ray (http://urlxray.com/): não precisa instalar, mas só funciona pra endereços resumidos (shortened URL's). É só uma página com uma caixa de diálogo onde você insere esses endereços abreviados de link que ficaram populares com o Twitter mas que são um prato cheio pra gente do mal, e ela informa o endereço real.

SpyBot - Search & Destroy (http://www.safer-networking.org/): um aplicativo que você instala em sua máquina (e atualiza regularmente, é bom lembrar) e que é super-eficiente para detectar e remover parte significativa dos malwares que infestam a internet.

5 de jun de 2013

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